quarta-feira, 23 de julho de 2014

Reflexões Diárias - Alcoólicos Anônimos


Quarta-feira, 23 de Julho de 2014.

PEÇO PARA DEUS DECIDIR

“Peço que removas de mim todo e qualquer defeito de caráter que me impeça de ser útil, a Ti e aos meus semelhantes.”
ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, p. 96


Tenho admitido minha impotência e tomado a decisão de colocar minha vida e minha vontade sob os cuidados de Deus, como eu O concebo, não sou eu quem decide quais defeitos serão removidos, nem a ordem em que os defeitos serão removidos ou ainda a hora em que eles serão removidos.

Peço a Deus que decida quais os defeitos que me impedem de ser útil a Ele e aos outros e então, humildemente, peço que os remova.
REFLEXÕES DIÁRIAS, p. 213

Fonte: http://www.aapiaui.org.br/reflexoes.php

Meditação Diária - Narcóticos Anônimos

Quarta-feira, 23 de Julho de 2014


Abrindo mão da vontade egocêntrica

Queremos e exigimos que as coisas corram sempre à nossa maneira. Deveríamos saber, pela nossa experiência passada, que a nossa maneira de fazer as coisas não funcionou.

Todos nós temos ideias, planos e objetivos para nossas vidas. Não há nada no Programa de NA que diga que não deveríamos pensar por nós mesmos, tomar iniciativa e colocar planos responsáveis em ação. Mas, quando nossas vidas são movidas pela vontade egocêntrica, nós nos envolvemos em problemas.

Quando estamos vivendo movidos por nossa vontade egocêntrica, vamos além de pensar por nós mesmos, pensamos somente em nós mesmos. Esquecemos que somos apenas uma parte do mundo e que, seja qual for a força pessoal que tivermos, ela provém de um Poder Superior. Podemos chegar ao ponto de imaginar que as outras pessoas existem somente para cumprir nossas ordens. Rapidamente, nos encontramos disputando tudo e com todos à nossa volta.

Nessa altura, temos duas escolhas: ou continuar escravizados à nossa vontade egocêntrica, fazendo exigências sem sentido e ficando frustrados porque o mundo não gira à nossa volta; ou nos render, relaxar, buscar o conhecimento da vontade de Deus e o poder de realizar esta vontade, encontrando o caminho de volta para uma condição de paz com o mundo. Pensar, tomar iniciativa, fazer planos responsáveis; não há nada de errado com estas coisas, contanto que elas sirvam à vontade de Deus, não meramente a nossa.
Só por hoje


Eu planejarei fazer a vontade de Deus e não a minha. Se me descobrir disputando tudo à minha volta, vou abrir mão de minha vontade egocêntrica.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Meditação Diária - Narcóticos Anônimos

Terça-feira, 22 de Julho de 2014

Morte espiritual

Para nós, usar é morrer em todos os sentidos

Como recém-chegados muitos de nós vieram à sua primeira reunião com apenas uma pequena centelha de vida. Esta centelha, nosso espírito, quer sobreviver. Narcóticos Anônimos nutre este espírito. O amor da irmandade rapidamente sopra esta centelha até que ela se torne uma chama. Com os Doze Passos e o amor dos outros adictos em recuperação, começamos a florescer como aquele ser humano inteiro, vital, que nosso Poder Superior planejou. Começamos a apreciar a vida, encontrando um propósito para nossa existência. Cada dia que escolhemos nos manter limpos, nosso espírito é revitalizado e cresce o relacionamento com nosso Deus. Cada dia que escolhemos a vida, nos mantendo limpos, nosso espírito fica mais forte.

Apesar do fato de que nossa vida em recuperação é recompensadora, a ânsia de usar pode ser, às vezes, esmagadora. Quando tudo em nossas vidas parece dar errado, uma volta ao uso pode parecer à única saída. Mas sabemos qual será a consequência se usarmos: a perda de nossa espiritualidade cuidadosamente nutrida. Já fomos muito longe em nosso caminho espiritual para desonrar nosso espírito com o uso. Apagar uma chama espiritual que, em nossa recuperação, nos esforçamos tanto para restaurar, é pagar um preço muito alto para ficar drogado.


Só por hoje eu estou grato por meu espírito estar forte e vivo. Hoje, honrarei este espírito permanecendo limpo.

Fonte: NASP-RGSP

sábado, 19 de julho de 2014

Lança Perfume



A Lei 6.368/76 considera, em seu art. 12, como criminosa a importação, fabricação, venda, transporte, guarda, consumo, dentre outros, de substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar.

Observe-se dispor o art. 36, da referida Lei, serem consideradas substâncias entorpecentes ou capazes de determinar dependência física ou psíquica aquelas que assim forem especificadas em lei ou relacionadas pelo Serviço Nacional de Fiscalização da Medicina e Farmácia, do Ministério da Saúde.

Dessa forma, está-se diante das chamadas normas penais em branco em sentido estrito ou de complementação heteróloga, cujo conteúdo não pode ser deduzido do próprio tipo penal, havendo necessidade de recorrer-se, para sua complementação, a disposições administrativas como é o caso da Portaria nº 344, de 12 de maio de 1998, da Secretaria de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde.

Menciona a citada portaria como substâncias de uso proscrito no Brasil, além da cocaína, a maconha, a heroína, etc, também o cloreto de etila (lança-perfume), como psicotrópico, ou seja, substância que provoca alterações de funções mentais indesejáveis, ameaçando a saúde ou modificando o comportamento humano.

Assim, por incluir-se o crime definido no art. 12 da Lei de Tóxicos dentre aqueles ofensivos à incolumidade pública, caracterizando-se por ser de perigo abstrato, em que não se perquire da efetiva ocorrência de dano, tendo como sujeito passivo primário o Estado, nele se insere a importação, venda, transporte etc, do cloreto de etila.

Ademais, a Lei nº 5.062 de 4/7/66 proíbe expressamente a fabricação, comércio e uso do lança-perfume em todo o território nacional (art. 1º e 2º).

Efetivamente, nossa jurisprudência tem vacilado sobre o tema, tendo inclusive a Sexta Turma do Colendo STJ, na Sessão do dia 17 de junho de 1999, desclassificado o lança-perfume como droga análoga ao tóxico ao entendimento de não causar este dependência física ou psíquica apesar de provocar depressão no sistema nervoso. (HC 8.300/PR, Rel. Min. Luiz Vicente Cernicchiaro, no mesmo sentido, CC 10590/PR, Rel. Min. Adhemar Maciel, DJU de 24-6-96, p. 22.704, p/maioria, 3ª Seção)

Todavia, data venia, tenho que tal entendimento não reflete a melhor exegese sobre o tema, porquanto a Lei de Tóxicos objetiva previnir e reprimir o tráfico ilícito e o uso indevido de substâncias entorpecentes ou que determinem dependência física ou psíquica. Sendo que o Ministério da Saúde, atraves da Portaria citada (nº 344/98), apesar de não relacionar o cloreto de etila como entorpecente e sim como psicotrópico (Lista F2), não faz em seu art. 1º, qualquer diferenciação entre os mesmos, considerando ambos como substâncias que pode determinar dependência física ou psíquica e relacionada, como tal, nas listas aprovadas pela Convenção sobre Substâncias Entorpecentes ou Psicotrópicas.

Por conseguinte, conforme estabelece o Ministério da Saúde, tal substância é considerada tóxica exatamente pela sua nocividade individual e social capaz de gerar dependência física ou psíquica.

Nesse ponto, valho-me dos ensinamentos do eminente Ministro Felix Fisher, que em seu substancioso voto vencedor, proferido nos autos do HC 7511/SP, DJU de 9-11-98, p.122, STJ, dispôs: ... Penso que o cloreto de etila continua sendo proibido para efeitos, inclusive, penais, porque, se entendermos que esta substância estaria tão-somente proscrita e não proibida pela Lei de Tóxicos, teríamos que admitir também que a cocaína, a maconha e a heroína estariam liberadas no plano da repressão aos entorpecentes e substâncias de efeitos análogos.

Ademais, o delito de contrabando (art. 334, do CP), norma geral que é, refere-se a mercadoria proibida, fica afastado, na hipótese, pela norma especial definida na Lei 6.368/76, já que expressamente previsto o cloreto de etila como substância entorpecente (Portaria nº 344/98).



" Perdi a moça por causa de um lança-perfume Rodouro", conta Alceu em co...

Cheirinho-da-loló


Cheirinho-da-loló ou Loló é o nome popular de um entorpecente preparado clandestinamente baseado em clorofórmio e éter.

Apesar de não existirem estudos conclusivos sobre dependência, sabe-se que possui diversos efeitos colaterais. No Brasil, foi proibida pelos vários relatos de parada cardíaca pelo uso desta droga, ou seja, o uso excessivo da droga pode causar morte.

O loló usado como inalante. Coloca-se um pouco em uma peça de tecido pequena e inala-se pelo nariz ou pela boca. Também é usado diretamente, inalando-se de uma latinha/garrafa pela boca e narinas ele também quando é inalado chega a ser parecido com o gás butano.

As alucinações do loló implicam em desequilíbrio, confusões auditivas e em alguns casos visuais. O loló também deixa as pessoas mais animadas e avulsas pra confusões. O usuário também torna-se desinibido e suas pupilas dilatam. Relata-se que algumas pessoas têm como efeito auditivo escutar um som comparado ao de uma ambulância, ou parecia como uma de helicoptero.

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cheirinho_da_lol%C3%B3

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Reflexão do dia - Alcoólicos Anônimos

Quinta-feira,17 de Julho de 2014

RENDIÇÃO E AUTOCRÍTICA

Minha estabilidade proveio de tentar dar, não de exigir que me dessem.
É assim que eu penso que pode funcionar com a sobriedade emocional. Se olharmos cada distúrbio que temos, grande ou pequeno, encontraremos em sua raiz uma dependência doentia, e, em conseqüência, exigências doentias. Que possamos, com a ajuda de Deus, entregar continuamente essas exigências aleijantes. Então nos poderá ser dada a liberdade para viver e amar; poderemos então fazer um Décimo segundo Passo para nós mesmos e para os outros, em direção à sobriedade emocional.
A LINGUAGEM DO CORAÇÃO, p. 238


Anos de dependência do álcool, como um alterador químico de meu humor, tiraram-me a capacidade de interagir emocionalmente com meus companheiros. Pensava que tinha de ser auto-suficiente, auto-confiante e auto-motivado num mundo de pessoas não confiáveis. No final perdi minha dignidade e fiquei dependente, sem qualquer capacidade para confiar em mim mesmo ou acreditar em qualquer outra coisa. Rendição e auto-exame, enquanto compartilho com os que chegam, ajudam-me a pedir humildemente por socorro.
REFLEXÕES DIÁRIAS, p. 207

Meditação do Dia - Narcóticos Anônimos


QUINTA-FEIRA, 17 DE JULHO DE 2014

Usar os nossos "sonhos de uso" 
"Aceitamos inteiramente o facto de terem falhado todas as nossas tentativas para parar de usar ou para controlar o nosso uso?" 
Texto Básico, p. 22 

O quarto está escuro. A tua testa está a transpirar. O teu coração bate com força. Abres os olhos, certo de que acabas de deitar por terra o teu tempo limpo. Tiveste um "sonho de uso" e foi como se estivesses lá - as pessoas, os sítios, a rotina, o mal-estar no estômago, tudo. São apenas alguns momentos até te aperceberes de que foi apenas um pesadelo, que nada daquilo aconteceu. A pouco e pouco acalmas e voltas a adormecer. Na manhã seguinte deverás examinar aquilo que de facto aconteceu durante a noite. Não chegaste a usar - mas quão perto estás de usar hoje? Tens algumas ilusões acerca da tua capacidade de controlares o teu uso? Tens alguma dúvida quanto àquilo que te aconteceria se tomasses a primeira droga? O que é que te impedirá uma recaída verdadeira? Qual é a força do teu programa? E as tuas relações com o teu padrinho ou madrinha, com o teu grupo-base, e com o teu Poder Superior? Os sonhos de uso não indicam necessariamente uma deficiência no nosso programa; para um adicto não há nada mais natural do que sonhar com drogas. Alguns de nós vêem os sonhos de uso como dádivas do nosso Poder Superior, lembrando-nos vivamente a insanidade da adicção ativa e encorajando-nos a fortalecer a nossa recuperação. Visto assim, podemos sentir-nos gratos pelos sonhos de uso. Por muito assustadores que sejam, eles podem tornar-se uma grande benção se os utilizarmos para reforçar a nossa recuperação. 

Só por hoje: Vou examinar o meu programa pessoal. Vou falar com o meu padrinho ou madrinha sobre aquilo que encontrar, e descobrir formas de fortalecer a minha recuperação.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Codependência - Historico



Década de 1940 – esposas de alcoólatras formaram grupos de auto-ajuda e apoio;

Co-alcoólicas ou para-alcólicas;

Final da década de 80 – Minessota – EEUU – surge a palavra "codependência" para designar o problema gerado pelo relacionamento com alcoólatras;
Posteriormente essa denominação se alargou e passou a definir os transtornos de relacionamento com pessoas com vários tipos de problemas e não unicamente o alcoolismo e a dependência química.
relacionamento com pessoas com vários tipos de problemas e não unicamente o alcoolismo e a dependência química.

Situações em que a codependência se manifesta entre familiares e pessoas que se relacionam com:

    Compulsivos por dinheiro, compras, comida, sexo, jogo, amor, etc.;
    Portadores de distúrbiosna alimentação (bulimia e anorexia);
    Crianças com problemas de comportamento;
    Indivíduos com ataques de raiva;
    Adolescentes rebeldes;
    Delinquentes;
    Indivíduos perturbados emocionalmente;
    Doentes crônicos;
    Pai, mãe ou ambos, agressivos, autoritários;
    Relacionamentos afetivos tumultuados, problemáticos.


Entendendo a codependência

"Codependência" é o que chamamos a relação de cuidados entre dois seres.

Assim sendo, há uma “codependência natural” e existe na relação entre um recém-nascido e sua mãe; na criança pequena ou bebê com a pessoa responsável pelos cuidados maternais; do jovem aluno com o professor; do doente enfermo com o médico/enfermeiro.
No início de uma relação isso é normal e até importante, mas com o tempo, cada qual vai amadurecendo em busca de sua “autonomia” e o outro vai se tornando um “cooperador”.
Essa evolução pode ser chamada de "interdependência".

"A diferença entre o remédio e o veneno é a dose"
(Paracelsus)

Definições de codependência

1987 – Johnson Institute of Minneapolis:
“Um conjunto de comportamentos compulsivos e inadaptáveis adquiridos por membros de uma família que passa por estresse e grandes dores emocionais como forma de sobrevivência...Comportamentos passados de geração em geração, esteja o alcoolismo presente ou não”.

Earnie Larsen – pioneiro em recuperação em Minnessota:
“aqueles comportamentos derrotistas adquiridos, ou defeito de caráter que resultam numa capacidade reduzida de iniciar ou participar de relacionamentos amorosos”.

Robert Subby John Friel – artigo do livro Codependency na Emergening Issue:
“Originalmente o termo foi usado para descrever pessoas cujas vidas foram afetadas pelo envolvimento com dependente químico. O codependente, filho, cônjunge ou amante de um dependente químico, era visto como alguém que desenvolveria um padrão doente de lidar com a vida, numa reação ao uso do álcool ou drogas praticado por outra pessoa”

Copendência é uma doença?

A codependência não é vista pela comunidade científica como uma legítima doença, mas um problema progressivo que pode tornar a pessoa doente;
Transtorno de relacionamento caracterizado pelo fato de uma pessoa ser controlada pelo comportamento de outra pessoa, a qual é ligada emocionalmente;
Síndrome da codependência - conjunto de sintomas como: baixa auto-estima; a dificuldade de colocação de limites; dificuldades em reconhecer e assumir a própria realidade; dificuldades de tomar conta de suas necessidades adultas; dificuldade de expressar suas emoções de forma moderada

Sintomas nucleares da codependência
1) Dificuldade de vivenciar níveis adequados de autoestima:

a) autoestima baixa – pensam que valem menos, que os outros são superiores;
b) arrogância ou mania de grandeza – pensam que são superiores aos outros;

2) Dificuldade de vivenciar limites funcionais:

Limites são cercas invisíveis e simbólicas que têm três objetivos:

a) evitar que as pessoas invadam nossos espaços e abusem de nós;
b) evitar que entremos no ambiente de outros e abusemos deles;
c) oferecer a cada um uma maneira de personificar nosso senso de “quem somos”;

3)Dificuldade de admitir a realidade pessoal:

a) corpo – aparência e funcionamento do corpo;
b) pensamento
c) sentimentos – emoções;
d) comportamento – o que se faz e não se faz.

4) Dificuldade de reconhecer e satisfazer necessidades e desejos:

a) excessivamente dependentes – conhecem seus desejos e necessidades, porém esperam que outras pessoas tomem conta dele;
b) antidependentes – incapazes de aceitar ajuda e orientação de qualquer pessoa;
c) não têm desejos nem necessidades – embora os tenham, não têm consciência deles;
d) confundem desejos com necessidades.

5)Dificuldade de experimentar e expressar moderadamente a realidade:

a)não sabem agir com moderação:

1-ou estão totalmente envolvidos ou totalmente desligados;
2-completamente felizes ou absolutamente infelizes;
3-acreditam que somente o excesso basta.

b) a essência da codependência resulta na dificuldade que o codependente tem em saber quais são seus sentimentos e como compartilhá-los.

Codependente - Definição

Melody Beattie – Livro Codependência nunca mais.

"O codependente é aquele que deixa se influenciar pelo comportamento de outra pessoa e que vive obcecado em controlar o comportamento desse outro".

Anônimo –
" O codependente é aquele que carrega sua própria nuvem de chuva ".

Alguns traços do codependente

    Controlador, preocupa-se em descobrir um forma para controlar o outro;
    Manipulador;
    Hostil;
    Ausência total de limites ou limites mal demarcados;
    Quase sempre não tem consciência da realidade pessoal;
    Confuso, dificulta o estabelecimento da comunicação;
    Quase sempre desagradável;
    Odioso, algumas vezes;
    Produz culpa, sente culpa e culpa o outro
    Cria obstáculos à compulsão do outro;
    Compulsivo para ajudar o outro.
    O tempo todo se dá ao outro
    Sempre perto e pronto para proteger;
    Especialista em cuidar e controlar tudo e todos;
    Carrega o fardo do outro e sente orgulho por isso;
    Incapaz de assumir o controle de sua própria vida e vivê-la;
    Não sabe o que fazer para solucionar os próprios problemas;
    Deixa de sentir emoções positivas;
    Para de pensar em si, só pensa no outro;
    Incapaz de dizer não;
    Sofre, reclama, agride;
    Sente raiva, medo amargura, depressão, desespero, impotência;
    Reacionário – reage excessivamente
    Inseguro para agir – precisa desesperadamente da aprovação dos demais;
    Sente-se vitimizado, pois o outro não reconhece seu esforço e cuidado;
    Oscila entre a onipotência e a impotência, negação e fuga;
    Dores de cabeça e das costas crônicas que aparecem como
    somatização da ansiedade;
    Gastrite e diarréia crônicas, como envolvimento psicossomático da angústia e conflito.
    Depressão. Resultado final


A codependência provoca disfunção familiar

O impacto na família pode ser descrito através de quatro estágios progressivos:

1) Na primeira etapa, é preponderantemente o Mecanismo de Negação. Ocorre tensão e desentendimento e as pessoas deixam de falar sobre o que realmente pensam e sentem. É mais fácil justificar e encobrir a conduta do dependente do que discuti-la;

2) Em um segundo momento, a família demonstra muita preocupação com essa questão, tenta controlar o uso da droga, bem como as suas conseqüências físicas, emocionais, no campo do trabalho e no convívio social.
Mentiras e cumplicidades relativas ao uso abusivo de álcool e drogas instauram um clima de segredo familiar.
A regra é não falar do assunto, mantendo a ilusão de que as drogas e álcool não estão causando problemas na família.
Tentam a barganha mostrando que são os melhores pais do mundo.

3) Na terceira fase, a desorganização da família é enorme. Seus membros assumem papéis rígidos e previsíveis, servindo de facilitadores. As famílias assumem responsabilidades de atos que não são seus, e assim o dependente químico perde a oportunidade de perceber as conseqüências do abuso de álcool e drogas. É comum ocorrer uma inversão de papéis e funções, como por exemplo, a esposa que passa a assumir todas as responsabilidades de casa em decorrência o alcoolismo do marido, ou a filha mais velha que passa a cuidar dos irmãos em consequência do uso de drogas da mãe.

4) O quarto estágio é caracterizado pela exaustão emocional, podendo surgir graves distúrbios de comportamento e de saúde em todos os membros. A situação fica insustentável, levando ao afastamento entre os membros gerando desestruturação familiar.

Recuperação

Processo difícil e doloroso que leva algum tempo, é um momento de reorganização pessoal e familiar, representa uma mudança do estilo de vida. A recuperação do dependente químico, por si só, não garante a recuperação do codependente.

O tratamento da codependência pode consistir de psicoterapia, grupos de auto ajuda, terapia familiar e em alguns casos, antidepressivos e ansiolíticos.

Os grupos de auto ajuda para familiares de dependentes, tais como, Alanom, Naranon,
Codependentes Anônimos, Amor Exigente, Pastoral da Sobriedade são de grande utilidade no processo de recuperação familiar da codependência.

Caminhos para a recuperação

Conscientização e aceitação – é preciso perceber e reconhecer os sintomas da codependência, aceitar que não é onipotente, que não pode controlar muitas das situações, que aceite a realida como ela é, que aceite seus limites;

Recuperação começa com dor – a aceitação da realidade desperta sentimentos dolorosos, desperta a dor da restauração de relacionamentos afetivos
importantes;

Batalha interior – percepção de conflito emocional interno – sentimento de culpa por odiar a pessoa a quem ama, mas quando percebe que é normal odiar a quem dedicou tempo e esforço emocional para quem só devolve hostilidade, indiferença, desprezo, é sinal que está no caminho da recuperação;

Mudança de atitudes durante a caminhada para a Recuperação
O codependente tem dificuldades para mudar, resiste à mudanças, prefere o ruim conhecido ao bom desconhecido. É preciso que perceba que pode exercer sua vontade para mudar as coisas, pois muito tempo sua vontade ficou presa ao outro;

Sugestões de atitudes:
Amar a si próprio;
Deixar de tolerar a vida ; vivê-la;
Deixar de controlar o outro: desligar-se
Deixar de permitir ser magoado: estabelecer limites;
Deixar de reagir: aprender a relaxar;
Deixar a preocupação e a negação: resolver os problemas;
Deixar de punir-se a si mesmo pelos problemas e insanidade do outro;

Caminhos para a recuperação:

Deixar de tomar conta compulsivamente dos outros, para cuidar de si mesmo;
Deixar de exigir perfeição de si mesmo e dos outros;
Aprender a sentir e a exprimir emoções;
Aprender a valorizar o que deseja e necessita;
Aprender a se divertir, sentir prazer em viver, em ser bom para si mesmo;
Observar o que está certo, deixando de se concentrar no que está, ou acha, que está errado;
Deixar de ser vítima, de se envolver em loucuras;
Desenvolver sua espiritualidade;

Em codependência, “curar” significa viver a vida, descobrir o seu sentido e amá-la.

Luiz Carlos Rossini
Fonte: Apostila Dra. Rozinez A. Lourenço

Mais 24 Hrs de Paz e Serenidade

Fonte: Blog Mais 24 Hrs http://mais24hrs.blogspot.com.br/2012/09/codependencia_25.html#.U8cGbLFWV7M

Mais sobre o modelo Minnesota


Minnesota é um dos estados americanos menos conhecidos no Brasil. Está localizado ao norte dos Estados Unidos, possui uma agricultura dinâmica, onde faz muito frio e é povoado por imigrantes do norte da Europa. Minnesota  não foi o primeiro lugar a ter um centro de tratamento baseado nos 12 Passos de AA, mas foi de lá que um modelo específico se desenvolveu, modelo esse que predomina nos Estados Unidos até hoje e que está rapidamente se espalhando por outros países.

Não há uma boa explicação do porque isto aconteceu em Minnesota e não em outra localidade mais urbana.

Quando a organização de Alcoólicos Anônimos foi fundada, em 1935, sentiu-se a necessidade de um local para internar os alcoólatras que estavam sofrendo e queriam parar de beber.

Manicômios e Tratamento de dependentes químicos

Enquanto isso, no manicômio estadual de Minnesota chamado Wilmar State Hospital, um psiquiatra, juntamente com o psicólogo Dr. Daniel Anderson tentaram desenvolver um trabalho juntos aos alcoólatras que ocupavam uma grande parte dos 1.600 leitos daquele hospital. Eles convidaram o grupo de AA que colaborava com a Hazelden a lhes ajudar no manicômio e logo perceberam que, através das reuniões de uma equipe multidisciplinar, incluindo os membros de AA que atuavam com conselheiros. Assim foi desenvolvido um dos primeiros grupos de profissionais multidisciplinares, incluindo dependentes em recuperação, baseados nos princípios de AA.

Logo se tornou claro que o manicômio não era um local apropriado para tratamento de dependentes químicos. Uma das medidas que o grupo multidisciplinar adotou foi a de permitir que os alcoólatras entrassem e saíssem do hospital livremente, gerando assim conflitos com a administração do mesmo.

A clínica na Hazelden, que não estava indo bem, contratou Dr. Dan Anderson para dar continuidade ao trabalho que ele começou no manicômio de Wilmar.

Assim nasceu o Modelo Minnesota, precursor de todos os modelos para tratamento de dependência química, que tem sua base estruturada nos 12 Passos de AA e que faz uso de uma abordagem multidisciplinar.

O Modelo Minnesota baseia-se nas seguintes concepções:

    Dependência química é uma doença e não um sintoma de outra patologia
    É uma doença multifacetada e multidimensional
    O motivo inicial que leva ao alcoolismo não está relacionado com o resultado
    Focaliza a causa que desencadeia o processo e não a pré-disposição para a dependência.

O Modelo Minnesota rege-se pelos seguintes princípios:

    A meta é tratar, mas não curar. O paciente é motivado a aprender a viver com o seu alcoolismo que é uma condição crônica. Não em procurar as causas e esperar por uma cura.
    Baseia seu programa de tratamento nos 12 Passos de AA especialmente nos primeiros cinco.
    Recomenda-se abstinência total de substâncias psicoativas.
    Cria um ambiente onde a comunidade terapêutica é totalmente aberta e honesta, o que propicia uma troca de experiências em todos os níveis.
    Tem uma equipe multidisciplinar que inclui um profissional denominado “conselheiro em alcoolismo”, que pode ser um alcoólatra em recuperação.
    Apresenta um programa essencialmente didático que é aplicável a qualquer pessoa, mas utiliza um plano de tratamento que é específico para cada paciente.

Pontos Fracos do Modelo Minnesota:

    É complexo para descrever seu funcionamento e depende muito das características pessoais daqueles que compõem o ambiente terapêutico. É de difícil avaliação objetiva devido à particularidades de cada caso. Ainda hoje desperta polêmica, havendo aqueles que o apóiam fanaticamente e aqueles que o criticam rigidamente.
    Devido à complexidade metodológica, é difícil sua avaliação mediante estudos dos processos dessa natureza.
    Apresenta uma mistura de princípios científicos com sabedoria, o que dificulta a avaliação e descrição do processo.
    Os papéis terapêuticos nem sempre são desempenhados por profissionais de formação formal. Isto cria muitas críticas dos profissionais de classes, especialmente entre os psiquiatras e psicólogos, além de problemas referentes a licenciamento e credenciamento.
    Existe tanta diversidade dentro do Modelo Minnesota que às vezes torna-se difícil determinar nitidamente o que é e o que não é o Modelo Minnesota. Sendo do domínio público, não existe nenhuma organização que faça esse controle e a Hazeiden não exerce esse papel.
    Devido à mescla de filosofias e profissionais, a administração de um programa dentro do Modelo Minnesota torna-se bastante trabalhosa.
    O modelo Minnesota não é a resposta definitiva para o tratamento de dependência química. É um método que não permite prognosticar com segurança para quem ele vai dar resultado sem antes experimentar.

Resumo do Modelo Minnesota:

    Os profissionais de tratamento e os pacientes colaboram na definição do caminho da recuperação.
    O foco do tratamento é a mudança do estilo de vida.
    O tratamento é de longo prazo.
    O tratamento é multidisciplinar.
    A reabilitação depende do apoio de sistemas naturais como a família, amigos e grupos de                    ajuda  mútua.

Contrastes desse modelo de reabilitação com o modelo médico tradicional onde:

    Os pacientes são passivos.
    Os medicamentos e a cirurgia são os instrumentos mais utilizados.
    O tratamento focaliza na cura








Fonte:OBID

O MODELO MINNESOTA

De: Magis – Caderno de Fé e Cultura – Psicologia e Espiritualidade - número 47 – julho 2005 - Pontifícia Universidade Católica e Centro Loyola de Fé e Cultura, páginas 131 a 137.


O MODELO MINNESOTA
Eliana Freire *

Vou falar sobre o Modelo Minnesota para o tratamento de dependentes de substâncias psicotrópicas, que é uma tentativa de integrar várias técnicas psicológicas com a proposta dos doze passos do A. A (Alcoólicos Anônimos, 1978). Trata-se de um modelo multidisciplinar, que utiliza profissionais de diversas áreas bem como "conselheiros leigos", e visa, sobretudo, a integração dessas diferentes abordagens num clima de humildade, pois é complicado trabalhar com profissionais de áreas diferentes.

O processo, baseado no conceito de dependência química como um fenômeno bio-psico-sócio-espiritual, é ancorado numa dinâmica essencialmente grupal na qual os residentes (clientes ou pacientes) compartilham entre si suas histórias e dificuldades, aprendendo a identificar suas emoções, valores e atitudes antes distorcidos pela droga.

A partir daí, aprendem um novo estilo de vida, livre das drogas. O essencial aqui é que, num clima amoroso, de aceitação mútua, descobrem que não estão sozinhos, que outros já passaram por sofrimentos semelhantes e hoje estão vivendo a vida de forma integral, com todas as suas dificuldades inerentes, sem drogas. Basicamente, de uma forma sucinta, esse seria o Modelo Minnesota que tanto pode ser adaptado a ambulatórios como a sistemas de internação (Burns, 1992,1995 e 1998; Anderson,198 1; Heilman, 1 980; Kurtz,1979; Spicer,1993).

Este é um dos modelos entre vários que se pode falar, ilustrando a questão da espiritualidade e o encontro com a psicologia. Eu, pessoalmente pude conhecê-lo em 1985, pois tive problemas com álcool e realizei o processo do Modelo Minnesota como cliente, e mudou totalmente a minha vida. Nesta época esse método tinha acabado de chegar dos Estados Unidos no Brasil e ainda estava sendo adaptado. O que ali experienciei, em muitos aspectos, fugia de tudo que havia aprendido academicamente na minha formação em psicologia. Tive a sorte de participar quando ele ainda estava com três anos de vida no Rio de Janeiro. É interessante, pois tende a existir uma garra e uma grande paixão nas pessoas que trabalham com propostas novas e pude usufruir desta atmosfera de uma forma intensa e positiva, com resultados que reverberam no meu cotidiano até hoje. Depois, as coisas tendem a se institucionalizar, e fica difícil manter aquela chama que se vê nas tentativas iniciais de tratamentos novos. O próprio John Burns (1998) que trouxe o Modelo Minnesota para o Brasil em 1982 percebeu que "esse modelo, já naquela época, estava literalizado e forjado num molde administrativo e terapêutico para satisfazer às companhias de seguro" (p. 12). Sorte minha que isso ainda não havia acontecido no Brasil. Ele e suas equipes se preocupam até hoje com atualizações, adaptações, estudos e questionamentos (Burns, 1998).

Considero a história do Modelo Minnesota uma história que nos ensina, ilustra, a atualização (no sentido de transformar em ação) do que estou chamando de espiritualidade no sentido mais horizontal, transformando os saberes (de origens diferentes, tanto acadêmicos como leigos) em ajuda àquele que sofre, num clima de humildade, solidariedade e compartilhamento. Na década de 50, pós Lei Seca e pós Segunda Guerra Mundial, nos Estados Unidos, existia um índice de alcoolismo muito grande e o modelo de saúde tradicional (psiquiatria e/ou psicanálise) não estava sendo eficaz. Realizavam muitas tentativas de internação, tratamentos e desintoxicação, mas a pessoa saía, recaía e voltava. Era aquele moto contínuo que todos conhecem, com os médicos, psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais, enfim, uma enorme equipe tentando ajudar sem obter êxito. Paralelamente, em Minnesota, um estado dos Estados Unidos, havia um pequeno grupo de alcoólatras em recuperação, que já estava em abstinência e frequentava o A.A. Todos eles se conheciam e conheciam os médicos que  lá estavam, desesperançados. Os profissionais de saúde então, começaram a abrir a mente para aprender com esses "leigos" (da medicina, mas certamente não do alcoolismo e nem da recuperação), como era essa história de ser dependente e como conseguir parar, pois no hospital as pessoas não conseguiam. Elas paravam apenas enquanto estavam internadas, quando saíam bebiam outra vez.

Nas reuniões de A.A. que, primeiramente pareciam esquisitas, diferentes e em bases duvidosas e estranhas àqueles profissionais, eles abriam a mente para conhecer as pessoas e entender esse processo. No começo, aquela linguagem era muito estranha (primeiro passo, impotência perante o álcool, poder superior, "só por hoje", etc.). A "ciência" ficou meio abalada, mas ao mesmo tempo curiosa, pois estavam vendo, inegavelmente, que aquela proposta estava funcionando (Darrah,1992; Robertson,1988).

Foram chamados alguns alcoólatras em recuperação, que já estavam em abstinência há mais tempo para o Willmar State Hospital em Minnesota, onde 80% dos pacientes tinham diagnóstico de alcoolismo. Este hospital foi o pioneiro no desenvolvimento do que veio a ser chamado "Modelo Minnesota". A equipe de profissionais começou a aprender com eles (alcoólatras em recuperação) como era esse processo de parar de usar a substância e ao mesmo tempo ficar tranquilo e curtir a vida com todas as suas dificuldades naturais. A maioria estava bem, interagindo com as pessoas, readaptada à vida, à sociedade. Não era aquela história de parar e ficar de mau humor ("porre seco"), mas sim, de mudar de estilo de vida.

A equipe se propõe a aprender com eles, e mais ainda, há um treinamento em que os alcoólatras em recuperação aprendem algumas técnicas com os profissionais também (há uma troca), e se tornam "conselheiros em dependência química" – isso não existia ainda. Surge uma mini comunidade terapêutica, um ambiente em que tudo objetivava facilitar a conscientização daquele dependente químico e da sua situação, da sua história de vida, facilitando a aceitação dessa disfunção, que seria crônica, primária e progressiva. Também identificam a importância da aceitação da idéia da abstinência e da reformulação de estilo de vida resultando na possibilidade de curtir o "barato" da vida sem drogas. Eram propostas diversas atividades, consultas individuais, terapia de grupo, diversas dinâmicas e palestras. Com o tempo as equipes chegaram à conclusão de que o elemento mais forte dessa abordagem eram exatamente os grupos informais de dependentes químicos. Os internos (residentes, pacientes ou clientes) se juntavam, falavam de suas histórias e trocavam com os mais velhos (antigos, i.e., mais tempo abstinentes), descobrindo maneiras de permanecerem "limpos". Como disse Spicer (1993), "a verdadeira terapia acontecia quando a equipe de terapia ia para casa" (p.42).

A grande novidade era a humildade para aceitar que, se por um lado existia uma limitação crônica, por outro havia a possibilidade da conquista de uma nova liberdade. Paradoxalmente, aceitar a limitação também abre para outras dimensões. Como já assinalava Gregory Bateson (1971) aqui o mito do autocontrole, da auto-suficiência da cultura hedonista e individualista é questionado. Nessa nova proposta, a pessoa se capacita a desenvolver todas as áreas da sua vida que estavam aprisionadas, por conta da perda de controle com as drogas, através de trocas solidárias, de ajuda mútua.

Gostaria de salientar que esta aprendizagem exige humildade, mente aberta de todos, tanto do profissional, como dos alcoólatras em recuperação (que eram conselheiros) e dos clientes. Havia um clima de camaradagem, do uso de primeiro nome, uma aproximação muito grande entre todos, um clima de família. Esse clima era altamente terapêutico. Então, basicamente, o que ocorria era uma aprendizagem por conta da experiência. Até existiam palestras sobre alcoolismo, mas na verdade, o resultado se dava devido aos relacionamentos no cotidiano, através dos exemplos, não das teorias.

Se um agia de determinada forma, o outro dizia: "você não acha que está meio nervoso?" Aí, ele olhava para um que estava lá há mais tempo, "zen", tranqüilo e observava, pois queria ficar daquele jeito. Ou seja, isso vem de uma sabedoria milenar. Aprendemos pela vivência, com o exemplo dos outros, que na verdade é o trabalho que os grupos do A.A. e N.A. fazem. Houve esse encontro de vários saberes, que logicamente, com o tempo começou a ser mais complexo, por exemplo, o modelo se estendeu para a dependência de outras substâncias psicoativas além do álcool, incluindo as ilegais c legais (como os fármacos), além da inclusão de comorbidades (Laundergan, 1982; Kinney e Leaton,1983; Smith e Wesson, 1985). Alguns casos de dependência química precisavam de medicação, principalmente durante a síndrome de abstinência. Eram usados todos os serviços (médicos, psicólogos, assistentes sociais, conselheiros, enfermeiros, etc.), mas o mais interessante é que todos (incluindo cozinheiros, pessoal da limpeza e administração) que trabalhavam nessas mini-comunidades acreditavam nesse estilo de vida altamente espiritualizado. Não a espiritualidade estando lá e eu aqui, mas sim, ela sendo vivida no cotidiano, na troca.

Se a patologia é fundada na relação disfuncional do indivíduo com a droga, a recuperação é aprender a se relacionar com o outro de uma forma amorosa, ela se dá na relação, é por isso que o grupo é importante. As pessoas se identificam e vêem que um não é tão diferente do outro. A culpa, a vergonha, o sentimento de excepcionalidade que existia antes, vai se reduzindo, pois são todos dependentes químicos, e muitos já parados há algum tempo. Todos são agradecidos aos que dividem suas histórias e que dão o exemplo de si mesmos. Como diz Hillman (1967):

Um novo sentimento de perdoar-se e aceitar-se começa a espalhar e circular. É como se o coração...estivesse aumentando sua influência. Aspectos sombrios da personalidade continuam com seu peso negativo, mas agora dentro de um contexto de uma "est6ria" mais ampla, o mito de si mesmo, e o começo de um sentimento de que eu sou como eu devo ser. Meu mito transforma-se em minha verdade; minha vida torna-se simbólica e alegórica. Perdoar-se, aceitar-se, amar-se e mais, perceber-se como pecador, mas sem culpa; agradecido por seus pecados e não pelos pecados dos outros, amando seu destino até o ponto de sempre estar desejando ser como é e manter esse relacionamento consigo mesmo. (p.119). Eu acrescentaria "e com os outros".

Creio que este modelo, acima de tudo, respeita a visão holística do ser humano como ser bio-psico-sócio-espiritual, enfatizando o sócio-espiritual tão esquecido em nossa sociedade individualista e materialista. Para terminar, independentemente da abordagem terapêutica adotada, creio que qualquer psicólogo concordaria com as metas contidas na sábia "Oração da Serenidade" proferida pelos grupos anônimos (A.A., N.A., Al-Anon, Nar-anon) em suas reuniões:

Concedei-nos Senhor a serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, coragem para modificar aquelas que podemos e sabedoria para distinguir umas das outras. ('Mascarenhas 1990, p.147)


                                                 Referências Bibliográficas
Alcoólicos Anônimos. A história de como muitos milhares de homens e Mulheres se recuperaram do alcoolismo, Centro de Distribuição de literatura de A.A. para o Brasil, 1978.
ANDERSON, D.J. Perspectives on Treatment: The Minnesota Experience, Hazelden Foundation, 1981.
BATESON, G. The Cybernetics of Self: A Theory of Alcoholism. Psychiatry, 34 (1), pp. 1-18, 1971
BURNS, J. General Systems Theory and the Treatment of Chemical Dependency, University Microfilm , Inc., University of Michigan, 1992.
         . O Caminho dos Doze Passos, Eds. Loyola, 1995.
         . O Modelo Minnesota no Brasil, apostila, 1998.
DARRAH, M.C. Sister Ignatia – Angel of Alcoholics Anonymous, Loyola University Press, 1992.
HEILMAN, R. O. Dynamics of Drug Dependency, Hazelden Foundation, 1980.
HILLMAN, J. Insearch – Psychology and Religion, Spring Publications, 1967.
KINNEY, J. E LEATON, G. Loosening the Grip: a Handbook of Alcohol Information, St. Louis: The C.V. Mosby Company, 1983.
KURTZ, E. Not God: A History of Alcoholics Anonymous, Hazelden Foundation, 1979.
LAUNDERGAN, J.C. Easy Does It: Alcoholism Treatment Outcomes, Hazelden and the Minnesota Model, Hazelden Foundation, 19$2.
MASCARENHAS, E. Alcoolismo, Drogas e Grupos Anônimos de Mútua Ajuda, S.P.: Siciliano, 1990.
ROBERTSON, N. Getting Better — Inside Alcoholics Anonymous, Morrow, 1988.
SMITH, D.E. e WESSON, M.D. Treating the Cocaine Abuser, Hazelden Foundation, 1985.
SPICER, J. The Minnesota Model, Hazelden Educational Materials, 1993.


Fonte: http://mais24hrs.blogspot.com.br/2012/10/o-modelo-minnesota.html

Overdose: quando o organismo não é capaz de se livrar dos exageros



"Há venenos em todas as coisas. Não existe nada sem veneno. Todas as substâncias são tóxicas. A dose correta é que diferencia um veneno de um remédio." Esta frase é de Paracelso, filósofo, médico, alquimista, que viveu por volta de 1.500 e é considerado o pai da Toxicologia Moderna.


O organismo tem um limite em sua capacidade de metabolizar a substância ingerida e, quando esta é consumida em quantidade e velocidade maior do que a possibilidade de metabolização, acontecem as overdoses.

A overdose se dá quando o indivíduo consome determinado tipo de substância num volume maior do que o organismo pode suportar, e isso pode ter consequências graves e até levar à morte.
O que ocorre com um organismo em overdose?

O fígado é o órgão responsável por metabolizar (eliminar) as substâncias químicas ingeridas pelo corpo e converter essas substâncias em novos compostos, mais simples e menos tóxicos ao nosso organismo. Entretanto, quando ocorre o alto consumo dessas substâncias químicas, como drogas e álcool, o fígado não consegue eliminar esses compostos na mesma velocidade em que são ingeridos, causando intoxicação do organismo. Quando a intoxicação é severa, como nos casos de overdose, pode ocorrer depressão do sistema nervoso central e parada cardiorrespiratória, ou seja, o coração e os pulmões param de funcionar, levando o indivíduo à morte.

De acordo com o psiquiatra do Einstein, Dr. Sérgio Nicastri, existem dois tipos de overdose, a intencional – na maioria das vezes promovida pelo abuso de drogas –, é quando a pessoa sabe que o consumo excessivo de determinada substância irá fazer mal, mas continua a ingerir a droga e/ou a bebida alcoólica. E a não-intencional que, na maioria das vezes, se dá em função da dosagem indevida de algum medicamento. A maior parte dos casos de intoxicação por medicamentos acontece pela automedicação.
O que faz um indivíduo entrar num estado de overdose?

"São vários os comportamentos entre as pessoas que são viciadas em substâncias psicotrópicas – aquelas que atuam diretamente sobre o cérebro – e que podem ter uma overdose. Existem as pessoas que consomem cada vez mais pela busca do prazer, as que consomem drogas "não confiáveis" e as que abusam de remédios, sejam eles manipulados ou não", explica o psiquiatra.

Algumas substâncias podem provocar intoxicações acidentais e também levar à morte, mesmo a pessoa não tendo consumido doses muito elevadas. É o caso de barbitúricos, codeína, morfina e inalantes.

Não há uma quantidade "segura" para o consumo deste tipo de substância, pois cada indivíduo possui níveis de tolerância diferentes. Mas algumas drogas têm maior potencial para provocar overdose, como a heroína, o crack e a cocaína, que possuem alto risco, pois provocam grandes alterações no sistema nervoso central, podendo levar à morte de forma muito rápida, por depressão respiratória (heroína) ou ataque cardíaco (cocaína e crack).

Pessoas que são viciadas em álcool – embora, se comparado com cocaína ou heroína, este apresente menor possibilidade de provocar overdose –, quando o consomem em doses elevadas podem sofrer coma alcoólico e morrer se não forem tratadas a tempo. Este risco aumenta muito quando o consumo de bebida alcoólica é associado a outras drogas, principalmente tranquilizantes.

A maconha oferece menor risco de overdose. Contudo, seu consumo excessivo pode provocar constantes distorções da percepção. Já o tabaco tem risco praticamente zero, considerando sua forma de absorção (fumado), mas a ingestão oral de um maço de cigarros poderia ser fatal.
Efeitos da overdose

Os efeitos variam de indivíduo para indivíduo e dependem muito do tipo de substância ingerida, da quantidade e da forma de uso (oral, venosa, subcutânea). Podem ser agudos ou crônicos e incluem tanto os riscos associados à droga propriamente dita quanto à via de administração utilizada pelo usuário. Alguns exemplos dos sintomas de uma overdose são agitação, sudorese, delírios, taquicardia hipertensão arterial, arritmia cardíaca, febre extrema, convulsões, dor no peito e infarto do miocárdio.
Quanto mais jovem, mais abuso

É claro que nunca podemos generalizar, mas é sabido pelo inconsciente coletivo que a adolescência é o período das experimentações, dos testes de limites. "Os jovens abusam de tudo, para eles não existe meio termo. E, na maioria das vezes, começam a usar alguma substância, influenciados pelo grupo de amigos, por precisarem ser aceitos dentro do grupo, afirma o Dr. Sergio Nicastri.

Robert T. Brown, pediatra e membro da Academia Americana de Pediatria, em um artigo publicado na Pediatric Clinics of North America, diz que o consumo de drogas se inicia principalmente na adolescência. Sendo o álcool a substância mais consumida pelos jovens, seguido de tabaco, maconha e estimulantes. Estes últimos ganharam destaque nos anos oitenta, com o ressurgimento do consumo da cocaína e o aparecimento do crack, bem como na última década, com a popularização do ecstasy.

"O adolescente não possui ainda a habilidade para prever os riscos de um comportamento habitual. Tal aptidão começa a se manifestar por volta dos doze anos e se torna mais presente a partir dos quinze. Desse modo, adolescentes mais assertivos e agressivos (assim como os mais impulsivos) se envolvem em comportamentos de risco com mais facilidade. Tais comportamentos podem tanto advir, quanto causar trauma e estresse", explica Dr. Robert Brown.
Do uso esporádico à dependência química

O uso de substâncias psicotrópicas por muito tempo e de forma regular faz com que o individuo comece a perder o controle sobre o seu consumo. Ele perde a condição de escolher e se torna dependente da droga.

Alguns sinais indicam a dependência química, como compulsão ou perda do controle, tolerância do organismo e a necessidade de doses cada vez maiores da substância para se obter os mesmos efeitos de antes; sintomas de abstinência; valorização da droga em detrimento do dinheiro e da vida social, entre outros.

O uso da droga passa a ser uma necessidade e não mais um ato que está ligado a uma ocasião social. O viciado em álcool, por exemplo, passa a beber não mais para relaxar, para curtir uma ocasião especial com os amigos, ele passa a beber para aliviar os sintomas da abstinência.

O viciado tem controle apenas sobre o primeiro ato. "Por exemplo, o viciado em álcool só sabe que ele não pode ingerir o primeiro gole, porém, se isso acontece, ele já não terá mais a capacidade de controlar", explica o psiquiatra do Einstein.

Como tratar um paciente em overdose?

Em casos de overdose, um bom tratamento de suporte continua sendo a melhor conduta. "O médico do atendimento de emergência deverá obter a maior quantidade possível de detalhes da história de vida do paciente, mantendo as vias aéreas, respiratórias e circulatórias monitoradas e funcionando. Passado este primeiro momento de urgência, é preciso que o paciente seja tratado por uma combinação de terapias farmacológicas, terapias psicodinâmicas e/ou cognitivo-comportamentais", finaliza o Dr. Sérgio Nicastri.


Fonte:

Crack chama a atenção para dependência química

ARTE: Priscilla Paz sobre fotos de Marcello Casal/EBC e David Ritter/Stockxchng

O consumo de substâncias psicoativas, lícitas e ilícitas, é um dos mais preocupantes problemas de saúde pública no mundo. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima em até 270 milhões os usuários de drogas ilegais (6,1% da população mundial entre 15 e 64 anos de idade). Desse total, pouco menos de 10% podem ser classificados como dependentes ou “usuários de drogas problemáticos” e calcula-se que até 263 mil deles, principalmente jovens, morram anualmente, a metade por overdose.

As estimativas dão conta ainda de que a cocaína foi consumida no último ano por até 20,5 milhões de pessoas.

Na América Latina, apesar de o número de mortes estar bem abaixo da média global, essa é a droga mais letal, em razão do grande número de consumidores, seja da própria cocaína ou de seus subprodutos, entre eles o crack.

Dados escassos

Recente publicação da Associação Médica do Rio Grande do Sul confirma que, no Brasil, “ainda são poucos os dados disponíveis, insuficientes tanto para o atendimento eficaz de usuários como para nortear políticas públicas de prevenção. Os estudos, pesquisas e dados estatísticos sobre o crack ainda são incipientes, razão pela qual muito do que se ouve falar carece da comprovação de fontes seguras”.

Ainda assim, é possível afirmar que a droga se alastra rapidamente pelo país, chegando a praticamente todos os municípios em todas as regiões. As pesquisas em andamento estimam que pode haver até 2,3 milhões de usuários de crack no país.
 
Morador de rua exibe pedra de crack e cachimbo em cracolândia no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. Foto: Marco Gomes/CC      
 
Os dados também revelam que o poder destrutivo do crack é superior ao da maioria das drogas ilícitas, devido ao fácil acesso, à alta letalidade (aumenta o risco de morte em oito vezes em relação à população em ­geral) e à precocidade do primeiro uso.

A duração da intoxicação, de dez minutos, considerada baixa, leva à busca imediata por mais crack. Apesar dessa curta duração, consta que o crack produza efeitos até seis vezes mais potentes que os da cocaína.
 


Devido ao seu poder altamente viciante, o crack tem um mercado cativo, em crescimento, estimulado pelo custo menor, assim como os do óxi e da merla, em relação ao preço da cocaína. O mercado desse subproduto, lançado para popularizar o uso da cocaína, movimentou até US$ 100 bilhões em 2009, segundo cálculos da ONU.

O crack levou ao surgimento de pequenos produtores e traficantes, que se confundem com usuários nas cracolândias. Essa nova dinâmica do tráfico gerada pela disseminação do crack dificulta inclusive o trabalho das polícias. Em 2009, foram apreendidos 374 quilos de crack no país, número pequeno, mas crescente em todos os estados. Roberto Kinoshita, coordenador de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas do Ministério da Saúde, afirma que, no início, os traficantes de cocaína não deixavam que o crack – assim como o óxi – entrasse no mercado porque ele desorganizava a estrutura do tráfico. Depois, no entanto, os traficantes perceberam que o crack é mais rentável do que a cocaína pura, tanto pelo baixo custo da produção quanto pela maior compulsão do usuário.


“Em termos de logística, [a produção do crack] dispensa laboratório e tem economia de escala. A base de consumo é muito maior, e não concentrada em determinadas populações com maior poder aquisitivo que consomem cocaína”, explica Roberto ­Kinoshita.

Frente a essa realidade, o Brasil não se preparou para tratar os seus dependentes de crack. Não bastassem as dificuldades inerentes ao atendimento médico e psicológico aos usuários, a rede de tratamento é pequena, precária e com profissionais pouco ­qualificados.

FONTE:  senado.gov.br

Tipos de tratamento


O tratamento da Dependência Química é um processo que conta com várias ações: psicoterapia, medicamento, internação etc.
Entretanto não são todas as pessoas que necessitam de todas as ações. O tratamento deve ser individualizado, ou seja, ele deve ser projetado de acordo com as necessidades do paciente e da família. Tratamento do tipo "pacotes", nos quais todos os pacientes passam pelas mesmas ações invariavelmente e independente da substância que usam, dos problemas que têm, ou da gravidade da dependência podem funcionar para um subgrupo de pessoas, mas não para todas. Não existe um tratamento único que atenda a todos os dependentes químicos. O terapeuta deve avaliar cuidadosamente cada caso, discutir com o jovem e com a família o plano de tratamento mais adequado. Alguns precisarão tomar medicamentos, outros não. A grande maioria não precisa ser internada, mas alguns precisam. Outros terão como indicação uma psicoterapia, ou terapia familiar, assim por diante. Só o terapeuta pode discutir com o cliente qual é a melhor opção para ele.

1. Quanto à Modalidade Ambulatorial:

na maioria das vezes deve-se começar um tratamento pelo ambulatório. Como qualquer doença as internações devem ser reservadas para os casos mais graves. Ninguém começa um tratamento de diabetes internado diretamente, a menos que apresente uma descompensação, mas aí o quadro clínico passa a ser grave e a internação se justifica. Devemos ter o mesmo raciocínio para o tratamento das dependências químicas. Pelo senso comum estabeleceu-se uma cultura de que tratamento de dependência química é sinônimo de Internação. Tal atitude deixa muitos jovens com medo de ir ao médico ou psicólogo porque acham que já vão começar internando. A internação involuntária só pode ser realizada se houver risco de vida para o paciente ou terceiros. O tratamento ambulatorial é o tipo mais acessível de tratamento, não só pelo seu menor custo, como pelas "vantagens" que ele apresenta. Ao contrário do que se imagina, o tratamento ambulatorial, é mais efetivo do que a internação, pois procura tratar a pessoa sem tirá-la do ambiente no qual ela vive e nem afastá-la das tarefas do dia-a-dia. Também é possível desenvolver com o paciente um tipo de atendimento mais longo que inclua reinserção social, prevenção de recaída, etc. Quando o paciente é encaminhado para um serviço ambulatorial, a família deve estar envolvida no tratamento sendo que o paciente deve ter consciência da sua responsabilidade no processo. O educador deve, neste momento, orientar a família com relação à importância do problema e funcionar como retaguarda do aluno, acolhendo-o sempre que necessário.  

Internação:

Modalidade reservada aos casos mais graves, que demandam cuidados intensivos. A internação é feita quando o profissional, que orienta o atendimento, percebe que a pessoa corre risco de vida, quando a própria pessoa prefere ser internada para se submeter ao tratamento, quando as tentativas ambulatoriais falharam, quando o jovem não tem uma rede de apoio familiar e social que o ajudará a ficar sem droga. A internação pode variar de alguns dias até 6 meses, dependendo da necessidade do paciente. Internações acima de seis meses não são mais eficazes que as internações mais curtas. Preferencialmente a internação deve se restringir ao período de crise e ser o mais breve possível. Há os recursos das semi-internações que são o Hospital Dia e o Hospital Noite. No primeiro, o paciente passa o dia no hospital e dorme em casa. No segundo, dorme no hospital e passa o dia fora. Estas modalidades de tratamento não são comuns em nosso meio e o Brasil carece de Serviços desta natureza.  

Internação Domiciliar:

este é um recurso utilizado pelos terapeutas para evitar a internação hospitalar. O jovem deve ter um bom suporte social e familiar e concordar com a internação. Neste período ele fica dentro de sua própria casa, sem sair. Não vai à escola ou ao trabalho e as tarefas fora do lar devem ser realizadas por outra pessoa. Não deve ter contato com usuários de drogas.  

2. Quanto à técnica

Psicológico:

O tratamento psicológico pode auxiliar e/ou complementar o tratamento psiquiátrico/medicamentoso e/ou funcionar como suporte motivacional e auxiliar na manutenção da abstinência. O psicólogo pode seguir diferentes linhas e independente da linha que siga irá sempre procurar trabalhar o lado emocional ligado ao problema sem receitar medicamentos. Muitas linhas psicológicas consideram a família do paciente um componente importante do tratamento e por isso o seu envolvimento é bastante freqüente. Existem diversos tipos de tratamentos psicológicos, em grupo ou individuais, que atendem às diferentes necessidades/características das pessoas. A linha mais utilizada atualmente é a chamada cognitiva. Pode-se usar também a linha comportamental, com treinamento de habilidades, entre outras. A psicanálise clássica, não se mostrou eficaz. É importante deixar claro que, se o paciente precisar ser medicado ou passar por uma desintoxicação, deverá procurar um psiquiatra.  

Medicamentoso:

A necessidade de um tratamento psiquiátrico deve ser avaliada na primeira consulta do paciente. Existe muito preconceito em relação ao tratamento psiquiátrico que é, muitas vezes, associado ao tratamento de doentes mentais. O educador deve, neste caso, orientar a família para a necessidade de consultar um especialista em dependência química salientando os aspectos químicos e físicos envolvidos no problema. O psiquiatra deve ser visto, portanto, como especialista na avaliação de um plano de atendimento no caso da dependência química. Existem poucos medicamentos que ajudam na Dependência propriamente dita - apenas para o Álcool e Tabaco. Geralmente o médico vai utilizar-se de medicamento se houver alguma doença associada, por exemplo, Déficit de Atenção e Hiperatividade, Depressão, Ansiedade dentre outras.  

Grupos de auto-ajuda:

Os grupos de auto-ajuda são grupos organizados por ex-dependentes e têm como base a troca de experiências, o aconselhamento e a religião. Os grupos de auto-ajuda não seguem nenhuma teoria específica, mas são extremamente eficientes, pois lidam com relatos de experiências vividas por outros dependentes que, desta forma, percebem o seu problema de uma outra maneira. Existem diferentes tipos de grupos de acordo com a dependência. Os A.A (Alcoólicos Anônimos) destinam-se a alcoólicos, os N.A. (Narcóticos Anônimos) são para dependentes químicos, o Amor exigente e ALANON são para familiares de dependentes. Para os adolescentes existe o ALATEEN.  

Religioso:

A crença religiosa é muito importante no tratamento de dependências. Ela deve ser respeitada e valorizada pelos pais, mesmo que esteja em desacordo com as suas próprias crenças, pois funcionam como base de orientação para a abstinência e para o tratamento. Muitas vezes, os dependentes não fazem nenhum tipo específico de tratamento e apenas a religião ou a fé em alguma crença garante a sua abstinência.   
 

DEPENDÊNCIA QUÍMICA


As drogas acionam o sistema de recompensa do cérebro, uma área encarregada de receber estímulos de prazer e transmitir essa sensação para o corpo todo. Isso vale para todos os tipos de prazer – temperatura agradável, emoção gratificante, alimentação, sexo – e desempenha função importante para a preservação da espécie.

Evolutivamente o homem criou essa área de recompensa e é nela que as drogas interferem. Por uma espécie de curto circuito, elas provocam uma ilusão química de prazer que induz a pessoa a repetir seu uso compulsivamente. Com a repetição do consumo, perdem o significado todas as fontes naturais de prazer e só interessa aquele imediato propiciado pela droga, mesmo que isso comprometa e ameace a vida do usuário.

MECANISMO GERAL DA DEPENDÊNCIA

Drauzio – Que mecanismo do corpo humano explica o processo de dependência da droga?

Ronaldo Laranjeira – Acho importante destacar que existe, no cérebro, uma área responsável pelo prazer. O prazer, que sentimos ao comer, fazer sexo ou ao expor o corpo ao calor do sol, é integrado numa área cerebral chamada sistema de recompensa. Esse sistema foi relevante para a sobrevivência da espécie. Quando os animais sentiam prazer na atividade sexual, a tendência era repeti-la. Estar abrigado do frio não só dava prazer, mas também protegia a espécie. Desse modo, evolutivamente, criamos essa área de recompensa e é nela que a ação química de diversas drogas interfere. Apesar de cada uma possuir mecanismo de ação e efeitos diferentes, a proposta final é a mesma, não importa se tenha vindo do cigarro, álcool, maconha, cocaína ou heroína. Por isso, só produzem dependência as drogas que de algum modo atuam nessa área. O LSD, por exemplo, embora tenha uma ação perturbadora no sistema nervoso central e altere a forma como a pessoa vê, ouve e sente, não dá prazer e, portanto, não cria dependência.

Vários são os motivos que levam à dependência química, mas o final é sempre o mesmo. De alguma maneira, as drogas pervertem o sistema de recompensa. A pessoa passa a dar-lhes preferência quase absoluta, mesmo que isso atrapalhe todo o resto em sua vida. Para quem está de fora fica difícil entender por que o usuário de cocaína ou de crack, com a saúde deteriorada, não abandona a droga. Tal comportamento reflete uma disfunção do cérebro. A atenção do dependente se volta para o prazer imediato propiciado pelo uso da droga, fazendo com que percam significado todas as outras fontes de prazer.

Drauzio – Você diz que a evolução criou, no cérebro, um centro de recompensa ligado diretamente à sobrevivência da espécie. As abelhas, quando pousam numa flor e encontram néctar, liberam um mediador chamado octopamina, neurotransmissor presente nas sensações de prazer. Esses mecanismos são bastante arcaicos?

Ronaldo Laranjeira  – O sistema de prazer é muito primitivo. É importante para as abelhas e para os seres humanos também. A droga produz efeito tão intenso porque age nesses mecanismos biológicos bastante primitivos.

Drauzio – Mecanismos tão arcaicos assim representam uma armadilha poderosa. Na verdade, provoca-se um estímulo forte que está mexendo com milhares de anos de evolução.

Ronaldo Laranjeira – Acho que estamos cada vez mais valorizando esse tipo de mecanismo. A droga é um fenômeno psicossocial amplo, mas que acaba interferindo nesse mecanismo biológico primitivo.

DEPENDÊNCIA É UM PROCESSO DE APRENDIZADO

Drauzio – A maioria das pessoas bebe com moderação, mas algumas fazem uso abusivo do álcool. Há quem fume maconha ou use cocaína esporadicamente, mas existem os que fumam crack o dia inteiro. O que explica essa diferença? A resposta está na droga ou no usuário?

Ronaldo Laranjeira  – Parte da resposta está na tendência ao uso crônico e na história de cada pessoa. Quando começou a usar? Como interpreta os sintomas da síndrome de abstinência? Além disso, o que vai fazer com que repita a experiência não é só a busca do prazer, mas a tentativa de evitar o desprazer que a ausência da droga produz.

A dependência é um processo de aprendizado. O fumante, por exemplo, pela manhã já manifesta sintomas da abstinência. Fica irritado e sua capacidade de concentração baixa. Ele fuma, o desconforto diminui. Vinte minutos depois, o nível de nicotina no cérebro cai, voltam os sintomas da abstinência e ele vai aprendendo a usar a droga pelo efeito agradável que proporciona e para evitar o desprazer que sua falta produz.

A dependência é fruto, então, do mecanismo psicológico que a um só tempo induz o indivíduo a buscar o prazer e evitar o desprazer, e fruto das alterações cerebrais que a droga provoca. Essa interação entre aspectos psicológicos e efeito farmacológico vai determinar o perfil dos sintomas de abstinência de cada pessoa. A compulsão é menor naquelas que toleram a abstinência um pouco mais, e maior nas que a inquietação é intensa diante do menor sinal da síndrome de abstinência.

Resumindo: a dependência química pressupõe o mecanismo psicológico de buscar a droga e a necessidade biológica que se criou no organismo. Disso resulta a diversidade de comportamentos dos usuários.
A maconha é um bom exemplo. Seu uso compulsivo hoje é maior do que era há 20, 30 anos e, de acordo com as evidências, quanto mais cedo o indivíduo começa a usá-la, maior é a possibilidade de tornar-se dependente. Como garotos de 12, 13 anos e, às vezes, até mais novos, estão usando maconha, atualmente o problema se agrava. Além disso, as concentrações de THC (princípio ativo da maconha) aumentaram muito nos últimos tempos. Na década de 1960, andavam por volta de 0,5% e agora alcançam 5%. Portanto, a maconha de hoje é 10 vezes mais potente do que era naquela época.

Diante disso, a Escola Paulista de Medicina sentiu a necessidade de montar um ambulatório só para atender os usuários de maconha e há uma lista de espera composta por adolescentes e jovens adultos desmotivados, que fumam seis, sete baseados por dia e não conseguem fazer outra coisa na vida. Isso não acontecia quando a concentração de THC era mais fraca e o acesso à droga mais restrito.

Drauzio - Quando se conversa com usuários de maconha de muitos anos, eles lastimam que a droga tenha perdido a qualidade. Sua explicação prova exatamente o contrário. Terão essas pessoas desenvolvido um grau de tolerância maior à droga?

Ronaldo Laranjeira  - Acho que a queixa é fruto de um certo saudosismo, uma vez que há tipos de maconha, entre eles o skank, que chegam a ter 20% de THC. Na Holanda, foram desenvolvidas cepas que contêm maior concentração desse princípio ativo, o que faz com que a maconha perca a classificação de droga leve e se transforme numa substância poderosa para causar dependência. Deve-se considerar, ainda, como justificativa da queixa que o uso crônico causa sempre certa tolerância.

Drauzio - No Carandiru, minha experiência mostra que há quem fume um baseado a cada 30 minutos. Uma droga que exija tal frequência de consumo não pode ser considerada leve, não é verdade?

Ronaldo Laranjeira  – Infelizmente não existem drogas leves, se produzirem estímulo no sistema de recompensa cerebral. Em geral, as pessoas perguntam: mas se a droga dá prazer, qual é o problema? O problema é que ela não mexe apenas na área do prazer. Mexe também em outras áreas e o cérebro fica alterado. Diante de uma fonte artificial de prazer, ele reage de modo impróprio. Se existe a possibilidade de prazer imediato, por que investir em outro que demande maior esforço e empenho? A droga perverte o repertório de busca de prazer e empobrece a pessoa. Comer, conversar, estabelecer relacionamentos afetivos, trabalhar são fontes de prazer que valorizamos, mas não são imediatas.

CARACTERÍSTICAS COMPORTAMENTAIS DOS USUÁRIOS

Drauzio – O uso crônico do álcool provoca uma série de alterações que todo mundo conhece e reconhece. Em relação às outras drogas, de acordo com sua experiência pessoal e não com as definições dos livros, quais as principais características do usuário?

Ronaldo Laranjeira  – No ambulatório da Escola Paulista de Medicina que atende usuários de maconha, pude notar que há dois grupos distintos. Um é constituído por jovens que perderam o interesse por tudo o que faziam. Não estudam nem trabalham. Estão completamente desmotivados. É o que chamamos de síndrome amotivacional. O nome é feio, mas pertinente. O outro grupo é formado por pessoas nas quais se estabelece uma relação complexa entre maconha e doenças mentais como psicose e depressão. Não se sabe se a maconha produz a doença mental. O que se sabe é que ela piora os sintomas de qualquer uma delas, seja ansiedade ou esquizofrenia.

AÇÃO E EFEITO DAS DIFERENTES DROGAS

Drauzio -Teoricamente, quando a pessoa ansiosa fuma maconha, fica mais relaxada. Você acha que isso é um mito?

Ronaldo Laranjeira  – É importante distinguir, na droga, o efeito imediato do efeito cumulativo. No geral, sob a ação da maconha, a pessoa ansiosa relaxa um pouco, mas esse é um efeito de curto prazo. O álcool também relaxa num primeiro momento. No entanto, as evidências demonstram que nas pessoas ansiosas seu uso crônico aumenta os níveis de ansiedade, porque o cérebro reage tentando manter o sistema em equilíbrio. É o efeito de homeóstase. Se alguém usa um estimulante, passado o efeito, o cérebro não volta ao funcionamento normal imediatamente. Surge o efeito rebote. Isso ocorre com qualquer droga. Tanto com a maconha quanto com o álcool, findo o efeito depressor, o efeito rebote elevará os níveis de ansiedade.

Drauzio – Como age a maconha na memória?

Ronaldo Laranjeira  - A maconha diminui a concentração, a memória e a atenção. É um efeito bastante rápido. Estudos mostram que, se alguém usar maconha num dia e medir os níveis de memória e concentração no outro, eles estarão ligeiramente alterados. Isso tem um impacto bastante negativo na vida dos adolescentes.

Na verdade, não há droga que melhore o desempenho intelectual. Nós sabemos que pessoas criativas usam drogas e produzem coisas criativas. Se elas não fossem criativas por natureza, não haveria droga no mundo capaz de produzir esse resultado.

Drauzio - Quais são os efeitos crônicos da cocaína?

Ronaldo Laranjeira – Em relação à saúde, o efeito mais grave da cocaína são os problemas cardíacos e cardiovasculares. Quando associada ao álcool, então, ela é uma das principais causas de infarto do miocárdio em adultos jovens.

ASSOCIAÇÃO PERIGOSA DA COCAÍNA COM O ÁLCOOL

Drauzio – Por que o usuário de cocaína bebe tanto?

Ronaldo Laranjeira  – De alguma forma, o álcool faz com que a pessoa se sinta mais liberada e use cocaína, um estimulante potente. Para diminuir a excitação, ela torna a beber e, como num círculo vicioso, a usar cocaína. A confusão cerebral aumenta consideravelmente e a tendência é beber ou cheirar mais. Trata-se de uma reação perturbadora em que o álcool incentiva o consumo de cocaína e vice-versa.

Drauzio – Fico assustado com a quantidade de bebida destilada que o usuário de cocaína consome.

Ronaldo Laranjeira  – A cocaína aumenta a resistência ao álcool, porque um pouco de seu efeito depressor é atenuado pela cocaína. Por outro lado, a pessoa tolera quantidades maiores de álcool, porque precisa abrandar os efeitos altamente excitantes da cocaína.
Sempre é válido repetir que álcool e cocaína representam uma das associações de drogas mais perigosas que existem. Ao que parece, tal associação dá origem a uma terceira molécula extremamente tóxica para cérebro e para o músculo cardíaco.

Drauzio – No Carandiru, vi meninos de 20 e poucos anos com infarto do miocárdio ou derrame cerebral puxando o braço ou a perna depois de uma seção de crack ou de uma overdose de cocaína. Isso acontece frequentemente?

Ronaldo Laranjeira  – Infelizmente, no Brasil, não há dados precisos sobre o que aconteceu com os usuários de cocaína, porque o sistema médico não é muito coordenado. Se eles existissem, ficaríamos horrorizados.

Tivemos uma pequena experiência acompanhando, por cinco anos, o primeiro grupo de usuários de crack que foi internado em Cidade de Taipas, interior de São Paulo. Era uma população de classe média baixa. No final desse período, 30% tinham morrido em acidentes ou por morte violenta. Nesse caso, as famílias não sabiam dizer quem eram os responsáveis pelas mortes: os traficantes ou a polícia.

Não sabemos se isso ocorre com todos os usuários de crack. Temos certeza, porém, de que poucas doenças apresentam esse índice de mortalidade.

SÍNDROME DE ABSTINÊNCIA / EFEITO REBOQUE

Drauzio – Como se manifesta o efeito rebotque?

Ronaldo Laranjeira – O mecanismo de recompensa cerebral é importante para a preservação da espécie e ninguém é contra o prazer. Ao contrário, deveríamos estimular o surgimento de inúmeras fontes de prazer. A dependência química, entretanto, cria uma ilusão de prazer que acaba perturbando outros mecanismos cerebrais. Se, fumando um baseado, a pessoa relaxa, findo o efeito, a ansiedade ganha força, pois a síndrome de abstinência é imediata. É o chamado efeito rebote.

A cocaína age de forma diferente. O efeito rebote está na impossibilidade de sentir prazer sem a droga. Passada a excitação que ela provoca, a pessoa não volta ao normal. Fica deprimida, desanimada. Tudo perde a graça. Como só sente prazer sob a ação da droga, torna-se um usuário crônico. Às vezes, tenta suspender o uso e reassumir as atividades normais, mas nada lhe dá prazer. Parece que, por vingança divina, o cérebro perdeu a capacidade de experimentar outras fontes que não a desse prazer artificial que a droga proporciona.

Essa é uma das tragédias a que se expõem os dependentes químicos. No processo de reabilitação, quando a pessoa para de usar droga, é fundamental ajudá-la a reencontrar fontes de prazer independentes da substância química.

Drauzio – Quem está de fora dificilmente entende o comportamento do dependente. “Esse cara, em vez de estar namorando, indo ao cinema, estudando, fica cheirando cocaína ou fumando crack”, é o que normalmente todos pensam. Isso dá a sensação de que o outro é fraco, com comportamento abjeto, digno de desprezo. Quem está passando por isso, vê a realidade de forma diferente?

Ronaldo Laranjeira  – Na verdade, essa pessoa está doente. Seu cérebro está doente, com a sensação de que não existe outro prazer além da droga. Isso acontece também com o cigarro, uma fonte preciosa de prazer para os fumantes que adiam a decisão de parar de fumar por medo de perdê-la. De fato, 30% dos fumantes, logo depois que se afastam da nicotina, apresentam sintomas expressivos de depressão e precisam ser medicados com antidepressivos.

BUSCA DO PRAZER TOTAL

Drauzio - Você acha que um dia aparecerá uma droga cujo mecanismo de ação se encarregue de nos deixar felizes sem provocar malefícios no cérebro?

Ronaldo Laranjeira  – Não acredito. Fica difícil imaginar uma droga que aja só no centro de prazer sem perturbar os demais mecanismos bioquímicos do cérebro, que é um órgão complexo e evolutivamente preparado para vivenciar muitas formas de prazeres sutis. Para tais estímulos, está aparelhado. Para os advindos das drogas, não.

Drauzio – Você não acha que o homem está sempre à procura do prazer total?

Ronaldo Laranjeira – A busca do prazer é uma característica positiva do ser humano. No caso das drogas, porém, ao querer superar a própria biologia por um artifício grosseiro, ele acaba se empobrecendo. O desejo de intensificar o prazer ao máximo empurra o homem para uma guerra que jamais será vencida.

CAMPANHAS CONTRA AS DROGAS

Drauzio – Quando analisamos as campanhas contra as drogas, verificamos que se baseiam muito nos aspectos negativos dessas substâncias. A ideia é sempre assustar o usuário: “droga mata”. Aí, o garoto fuma um baseado e não morre. Ao contrário, sente-se bem e fica achando que tudo não passa de uma grande mentira. Você acha que o enfoque das campanhas é ingênuo?

Ronaldo Laranjeira – Estamos ainda muito no começo. Na criação de um modelo do que acontece com os usuários de droga, as campanhas estão numa fase bastante embrionária, mas acho que estão certas ao afirmar que drogas fazem mal. Ficar só nisso, porém, é passar uma informação de saúde ingênua e pobre. É preciso dizer como e por que as drogas são altamente prejudiciais ao organismo para que a pessoa tome uma decisão firme, bem alicerçada, e disponha-se a abandoná-las.

As evidências nos mostram que, quando se trabalha com a prevenção, a prioridade deve ser dada aos fatores de risco. Todavia, a partir do momento em que já está instalado o consumo (maconha, nos casos mais comuns), as estratégias teriam de ser bem diferentes.

ORIENTAÇÃO AOS PAIS

Drauzio – Muitas vezes os pais ficam apavorados quando encontram maconha nas coisas dos filhos. Como você orienta quem vive esse problema?

Ronaldo Laranjeira – Na verdade, maconha é a primeira droga ilícita que a pessoa consome, mas antes disso, em geral, já experimentou o álcool e o cigarro. Já não se discute mais que, quanto mais cedo o adolescente entrar em contato com a droga, maior será a probabilidade de “escalar”, isto é, de partir para outras drogas ou intensificar o uso da maconha. É muito difícil prever quem vai ou não embarcar nesse processo. Sabe-se, porém, que quantos mais amigos envolvidos com drogas ele tiver, maior risco correrá do uso tornar-se crônico.

O primeiro passo para enfrentar a situação é os pais se informarem sobre o que está acontecendo na vida dos filhos e voltarem a exercer controle mais efetivo sobre suas atividades. Em geral, esse problema reflete uma certa crise familiar. Por razões diversas, pais e filhos se distanciaram. Por isso, a estratégia básica é levar ao conhecimento dos pais o que está acontecendo com seus filhos e os riscos que eles correm.

Quanto ao adolescente, é complicado conversar sobre esses riscos. A tendência do jovem que já se envolveu com maconha é minimizá-los ao máximo. “Que mal existe em fumar um baseado por semana?” é a pergunta que muitos fazem. Acontece que, na maioria das vezes, quem começou precocemente, no período de seis meses, estará fumando um baseado por dia.

Na entrevista clínica, não dá para antever o caminho que cada um percorrerá no mundo das drogas. Quem já teve o desprazer de acompanhar um adolescente numa entrevista, tranquilizar os pais, dizendo – “Olhem, ele só está usando uma vez por semana. Essa é uma experiência pela qual ele deve passar.” – e, depois de dois anos, ver esse jovem totalmente deteriorado, traficando drogas, fica muito preocupado com o momento certo em que deve interferir. Esse é o desespero dos pais e o dilema dos profissionais: agir na medida exata da necessidade de cada caso. Nem todos precisam de tratamento, mas não se pode deixar escapar aqueles para os quais o acompanhamento clínico é indispensável.

Drauzio – Em que você se baseia para julgar se um garoto, que afirma fumar maconha a cada dois meses , representa risco de tornar-se um usuário crônico?

Ronaldo Laranjeira – É preciso estar atento a três fatores que combinados são sinais de alerta e requerem algum tipo de acompanhamento. O primeiro é atitude por demais tranquila do adolescente que considera a maconha inofensiva e destituída de inconveniências. Depois, é importante considerar a rede social em que está inserido. Os amigos com quem convive são usuários da droga? Por último, deve-se avaliar seu desempenho nas atividades cotidianas. É o caso do bom aluno até os 13 anos, que foi perdendo o interesse pela escola e não reage mesmo diante da ameaça de perder o ano.

PARANOIA ASSOCIADA AO CONSUMO DE DROGAS

Drauzio – A paranoia é um efeito terrível da cocaína. O indivíduo cheira e entra numa crise persecutória alucinante. O que leva alguém a usar uma droga sabendo que irá provocar uma sensação medonha e que nenhum prazer oferece?

Ronaldo Laranjeira – Essa é a essência da dependência química de uma droga. Primeiro aparece o efeito prazeroso e, depois, o desprazer. Com a cocaína, isso é mais intenso. Seu efeito de excitação e de prazer é imediato, ocorre em poucos segundos. Alguns minutos depois, desaparece e surgem os efeitos desagradáveis. Confrontando os dois, prevalece a lembrança dos bons momentos e a pessoa volta a usar a droga. Tive um paciente que injetava cocaína. Suas veias tinham sumido, mas mesmo assim ele não desistia. Expunha-se ao tormento de dezenas de picadas para obter um único resultado positivo que, em sua balança emocional, compensava o sofrimento anterior. Os fumantes têm comportamento parecido. Muitos, mesmo com traqueostomia, não deixam de fumar.

Drauzio - Conheci alguns que, apesar da insuficiência vascular cerebral, ficavam tontos e caíam no chão quando fumavam, mas não desistiam e logo depois acendiam um cigarro outra vez.

Ronaldo Laranjeira - É a força da dependência, um fenômeno diversificado cuja essência é a disfunção cerebral provocada por várias drogas e que se manifesta em pessoas de personalidades diferentes.

Drauzio - A maconha também pode provocar paranoia?

Ronaldo Laranjeira – É menos comum, mas casos de paranoia também ocorrem especialmente em pessoas que já apresentaram algum problema mental. Quem tem um surto psicótico e fuma maconha, por exemplo, faz um péssimo negócio, porque se intensificarão os sintomas dessa doença já estabelecidos anteriormente.

No que se refere à cocaína, nem todos que manifestam esses sintomas desenvolverão a síndrome paranoica. No entanto, quando isso acontece, as consequências são desastrosas. Soube de um usuário de cocaína que, em crise, saiu em disparada por uma estrada, foi atropelado e morreu. Há outros que pegam uma arma e disparam a esmo.

FORÇA PODEROSA DA DEPENDÊNCIA

Drauzio – Muitos usuários garantem que a maconha é uma droga fácil de largar, que não causa dependência. Isso é verdade?

Ronaldo Laranjeira – Cada droga tem um perfil de dependência, e a maconha não é muito diferente das demais. Como já foi dito, atualmente ela está dez vezes mais forte do que era há 30 anos. Por isso, não é tão fácil afastar-se dela, principalmente se a pessoa começou a fumar na adolescência, quando ainda era um ser em formação.

O acompanhamento de usuários de maconha, no ambulatório da Escola Paulista de Medicina, sugere exatamente o contrário. As pessoas conseguem suspender o uso da droga durante alguns dias, mas a vontade fica incontrolável e elas voltam a fumar os baseados.

Drauzio – No Carandiru, examino rapazes com tuberculose que fumam cigarros de nicotina, de maconha e crack. Explico-lhes que eles não podem fumar de jeito nenhum porque seus pulmões estão doentes, muito inflamados. Na semana seguinte, eles me informam que conseguiram suspender o crack e a maconha, mas o cigarro está difícil. Isso se repete nas semanas subsequentes. Tive centenas de casos como esse, que me convenceram de que o cigarro é mais difícil de largar do que as outras drogas. Estou exagerando?

Ronaldo Laranjeira – Embora o efeito da nicotina não seja tão poderoso quanto o da maconha, é muito mais constante. Imaginemos que o fumante dê dez tragadas em cada cigarro e fume vinte cigarros por dia. Feitas as contas, num único dia seu cérebro recebeu um reforço positivo pelo menos duzentas vezes. Cada tragada é igual a uma injeção de nicotina na veia. Esse estímulo, repetido através dos anos, faz com que a dependência de nicotina seja mais poderosa do que as outras. A maconha, no momento, passa por processo semelhante. Mais disponível e mais barata, seu consumo aumentou e, consequentemente, o número de cigarros fumados por dia e os estímulos cerebrais que provocam aumentaram também. Portanto, em termos de dependência, as duas drogas não diferem muito. Pelo atual padrão de consumo, mais fácil, acessível e intenso, maconha e nicotina têm muito em comum. Por isso, não compartilho a ideia de que maconha seja uma droga leve.

Drauzio – O usuário de cocaína diz que deixará de usar a droga quando quiser. No entanto, admite que não poderá vê-la, porque entrará em desespero e a vontade de consumi-la ficará incontrolável. Como se pode explicar esse fenômeno?

Ronaldo Laranjeira  – Ficar longe da droga, quando se está disposto a abandoná-la, faz parte do processo de aprendizado. No exato instante em que a pessoa vê a cocaína, seu cérebro começa a preparar-se para recebê-la e dispara um mecanismo que chamamos de craving ou fissura. Isso vale para qualquer droga. Depois que ficou dependente, é quase impossível alguém ver a droga e resistir ao desejo de usá-la. Por isso, na fase inicial do tratamento, aconselha-se que o usuário se afaste completamente de todos esses estímulos, pois ficará menos difícil lidar com o fenômeno da dependência química.

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