terça-feira, 22 de abril de 2014

CANTO DOS MALDITOS, de Austregésilo Carrano Bueno

Austregésilo Carrano faleceu em São paulo, em 27/05/2008, aos 51 anos de idade. 
Hoje vamos publicar trecho do livro, CANTO DOS MALDITOS, cujo autor chama-se Austregésilo  Carrano  Bueno, que inspirou o filme Bicho de Sete Cabeças.

O texto que publicamos é longo e incompleto. Para quem não tem muito tempo para leitura de textos longos, sugerimos a impressão do texto, que retrata como funciona - de verdade - os manicômios, estes lugares surreais, absurdos, muitas vezes inimagináveis por familiares. Lembro que quando estava numa "clínica" prisional chegou um novato, muito lúcido, como outros tantos que se achavam encarcerados e submetidos a um regime louco, que nossos familiares acham que são locais aptos a "tratar" a dependência química... Pois bem, perguntei ao jovem paranaense qual a droga que o trouxe a tal lugar e ele me respondeu que o pai achou um baseado na gaveta do armário dele e isso resultou em escândalo que resultou em mais um novo absurdo. Ele estava internado naquela espelunca, de fachada, porque era mero iniciante no uso de maconha.

O texto transcrito me conduz a pensar e alguns companheiros que entraram sãos, nestes lugares,  e saíram pirados. Em "Clínicas", cuja internação é compulsória, podemos observar muita podridão denunciada em Canto dos Malditos. Também lembro, adictos, muitas vezes, não sabem se defender, nem se organizar, nem reagir com inteligência, protestando e denunciando internações malditas.

Eis o texto, que segmentarei, Se tiver tempo de sobra tentarei reformatá-lo, sem prejuízo à obra e ao que o autor quis transmitir :

"J a m a i s  SONHARIA  a o n d e   o s   caminhos  da  minha adolescência  me  levariam.  Algo  que  supus  acontecer apenas  em filmes  americanos  de  terror  aconteceu.  Em  meados  de  outubro de  1974,  chegando em casa,  fui convidado por meu pai a acompanhá-lo  em  visita  a  u m  amigo  seu,  hospitalizado.  Estranhei aquele convite, pois não tínhamos o hábito de sair juntos, mas fui.

Chegando ao hospital, antes mesmo de entrarmos nas instalações  de  imediato  dois  enfermeiros vieram ao  nosso  encontro. 

Com sorrisos, postaram-se um de cada lado.  Desconfiei daquela posição.  Pegaram em meus braços.
— Ei! pera aí...  o que está acontecendo? - perguntei assustado  e olhando para meu pai.
— Calma,  filho,  é para o  seu bem! - respondeu meu pai.
— Seu pai  o  trouxe  aqui  pra você  fazer uns  exames,  apenas isso...
 — falou um enfermeiro negro.
— Mas  que  exame,  pai?  eu não  estou  doente...  — perguntei, forçando para soltarem os meus braços.
— Calma,  filho!  é para o seu bem...
— Q u e calma?  eles  estão me puxando...  qual é, velho?
— Nós sabemos que você não está doente. Ele só quer que você faça uns exames e mais nada... 
— disse, tentando me acalmar,  o enfermeiro negro. Puxaram-me para dentro de um pavilhão.
— Ei!...  espere  aí,  meu pai não vai  entrar? — falei  e vi  a  por­ta atrás de mim fechar-se.
— Venha comigo! — disse o negro. Largaram os meus braços.
Caminham os  p o r  um  corredor.  D o  lado  direito  ficavam quartos,  do  lado  esquerdo,  uma  sala  não  muito  grande  com mesas e cadeiras. Entramos num quarto logo ao lado da sala. Era um  quarto  que  usavam  como  enfermaria.  Sentaram-me  numa cama alta.  Havia um pequeno armário com vidro e um suporte para  braço.  O  enfermeiro  negro  sentou-se  ao  meu  lado  na cama,  o  outro sentou-se  a uma mesinha de  enfermagem.
— Com o  é  o seu nome? — perguntou  o  enfermeiro negro.
— Austry.
-  Bem,  Austry,  o  que  na  realidade  está  acontecendo  é  o seguinte...
 —  Fez  uma  pausa.  —  Seu  pai  encontrou  maconha numa jaqueta sua.  Ele  acha  que  você  é viciado  e  trouxe-o  aqui para fazer tratamento.
- Não acredito.  Meu velho pensa que sou viciado? Ele nem conversou  comigo  e já me trouxe pra cá?!...
- E  o fumo,  você fuma maconha? - o  negro.
—  D o u  meus  peguinhas,  mas  isso  não  significa  que  seja viciado.
- Bom,  só  sei  que seu pai o internou  e  a gente vai tratar de você.
- Tratar de mim?  Isso é uma piada. Eu não sou um viciado, podem  fazer  o  exame  que  quiserem.  Não  sou  dependente  de droga  nenhuma.  Vamos,  façam  os  exames!  Podem  fazer  qual­quer  tipo  de  exame,  vocês  verão  que  não  tenho  dependência nenhuma...  Isso  é,  se  vocês forem capazes  de  entender o  que  é ser  u m  viciado!  Cara!  tô  afirmando  pra  vocês:  eu  não  sou nenhum dependente!  Então,  que tratamento vocês vão fazer?
- Todos os viciados que passam por aqui começaram com a maconha e as bolas.  E agora  estão nos picos.
—  Problema  deles.  Pico  não  é  o  m eu  caso  e  nunca  será. Podem olhar meus canos,  não tenho uma marca.  Se eu tomasse pico,  tá  certo,  vocês  podiam  me  classificar  como  viciado,  dependente, caso eu não passasse sem uma picada. Mas maconha... a maconha faz menos mal que  o  cigarro  comum.
- É  o que você  diz.  Os  estudos médicos dizem outra coisa. Agora vou lhe aplicar uma injeção  e você  vai  dormir um pouco.  Não precisa ficar com medo!  Meu nome  é Marcelo
— disse o enfermeiro negro.
Que  medo!  eu  não  acreditava,  era  um pesadelo...  Só  podia ser  u m  pesadelo  —  eu,  internado  para  fazer  tratamento  por fumar maconha...  Se eu tomasse pico, cocaína, tá certo. Mas eu não  tomava,  mal  tinha cheirado  uma  ou  duas vezes.  Só porque fumava  maconha?...  As  vezes  eu  passava  semanas  sem  colocar um  fininho  na  boca.  Qual  é?  Maconha  não  vicia  ninguém,  e, quem disser o contrário,  eu desafio a provar que maconha vicia.
Preparada a injeção...  uma cavala! Braço no suporte, palmadinhas para despertar a veia,  e a picada.
-  Cara,  não  tem  nada  a  ver  esse  internamento...  Eu  não... vou...  fi... — E não vi mais nada. Acordei no dia seguinte, tenta­va raciocinar...  tonto pelo  efeito  da injeção!  Estava num quarto cinza-claro.  Um pijama azul de bolinhas.  Não  era meu.  Levantei, fui até a porta.  Ao  abri-la,  dei de cara com um pessoal sentado  às  mesas,  tomando  café.  Todos  me  olharam,  uma  nova atração.  Queria ir ao banheiro,  meu pênis estava duro,  fato  que chamou mais a atenção de todos. Encabulado,  tentei esconder o meu estado.  Perguntei onde era o banheiro,  um cara com ar de gozação informou.
O  pavilhão  era  grande  como  um barracão.  Lá  estava  a  sala com as mesas,  em frente  ao  quarto  em que  eu  dormira.  Caminhando  em  direção  ao  fundo  do  pavilhão,  havia  um  corredor com quartos  dos  dois lados  e  mais  uma  sala grande  com mesas compridas,  como  as  de  festas  de  igreja.  Passando  essa  segunda grande sala,  havia um corredor com mais  quartos  de  cada lado. 
As  portas  dos  quartos  tinham  uma  pequena  abertura  em hori­zontal,  que permitia ver o interior.  O banheiro era do tamanho dos  quartos,  com  vaso  e  chuveiro,  uma  pia  de  rosto  e  um pequeno espelho na parede.
Tomei  café,  sem  importar-me  com  os  outros  que  ali  estavam.  Estava  querendo  entender  a  fria  em  que  me  encontrava. 
Matutava  com meus botões.  Sentia  os  olhares,  querendo interrogar.  Fui  o  último  a  levantar  da  mesa.  Os  outros  tinham  ido para  o  fundo  do pavilhão.  Após  aquele  café  com  cevada  e  pão, fui levado  a outra sala, a das mesas grandes.  O enfermeiro abriu uma porta e mandou-m e sair.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

LEMA DO PSICODRAMA - Jacob Levy Moreno


"Um Encontro de dois:
olhos nos olhos,
 face a face.

 E quando estiveres perto,
arrancar-te-ei os olhos e
 colocá-los-ei no lugar dos meus;

 E arrancarei meus olhos
 para colocá-los no lugar dos teus;

 Então ver-te-ei com os teus olhos
 e tu ver-me-ás com os meus"

CIDADE DOS ESQUECIDOS, por Andrea Dip


A ideia desta matéria veio de um sonho que tive uma noite.Eu andava por um corredor longo, escuro e esverdeado de hospital psiquiátrico, ouvindo as histórias das pessoas, conversando com com médicos. Acordei resolvida a conhecer de perto esse assunto que tanta gente não lembra que existe: a loucura. O que não imaginava é que, em vez de deparar com o sofrimento psíquico, tropeçaria em problemas escandalosos.

O Brasil tem hoje 42.000 internos em 240 hospitais psiquiátricos. É o terceiro maior repasse do SUS(Sistema Único de Saúde) e,apesar da política do Ministério da Saúde de diminuição gradual dos leitos, 63 por cento das verbas de saúde mental vão para os manicômios.

"Na primeira metade do século 20, através da Liga Brasileira de Higiene Mental, intelectuais simpáticos às ideias eugenistas e racistas do nazifascismo procuraram fundamentar o papel do hospital psiquiátrico como instituição de tratamento. enquanto nos seus porões produziam experiências biológicas e mutiladoras", explica o doutor Dr Nacile Daúd Júnior, psiquiatra. pesquisador e militante
do ainda pequeno movimento anti manicomial no Brasil.

De 1934 (quando surge a primeira lei psiquiátrica que atribui ao poder público a defesa da sociedade "contra os loucos de todos os gêneros", até 1965 já havia no pais 135 hospitais psiquiátricos superlotados. "O hospício no Brasil nasce com uma vocação: a da higienização, que vem de braços dados com uma perspectiva capitalista da produtividade. Se o indivíduo não tivesse a capacidade de produzir, não servia. Então, o hospício brasileiro recebia os indesejáveis, não só os loucos. mas os negros. as prostitutas, os mendigos e os imigrantes. E acabou com o "campo de concentração", diz Maria Cristina Lopes, psicóloga, ex-coordenadora da ONG SOS Saúde e atual diretora de um centro de convivência para doentes mentais em São Paulo.

A década de 1960 inauguraria uma nova fase. "A partir da política privatista pós-64", comenta o doutor Nacile, "expandiu-se o parque asilar através de hospitais psiquiátricos privados, conveniados com o Estado. Em 1966, o INPS ( Instituto Nacional de Previdência Social) ampliou o financiamento de empresas de saúde. De 1966 a 1981, os hospícios passaram de 135 para 430, num total de 105.000 leitos, 80 por cento controlados pela iniciativa privada. Além disso,  a ditadura aproveitou os hospícios para submeter presos políticos ao eletrochoque, contenções, celas fortes e drogas poderosas como a escopolamina, prescrita como 'medida disciplinar'.

A escopolamina era usada por Hitler durante o nazismo, como a droga da verdade. Ela causa sensação de morte iminente "e faz o sujeito confessar qualquer negócio", explica Maria Cristina.

Só no Juquery, hospício em Franco da Rocha, na Grande São Paulo, havia 16.000 internos, nos anos 1960 e 70. Pessoas dormiam amarradas a troncos pelos Pátios, para não fugir.

Austregésilo Carrano, autor do livro Canto dos Malditos, tinha 16 anos quando seu pai achou, em 1974, um baseado na sua jaqueta. O pai o internou. Foram quatro anos de internação em diferentes hospitais. Vinte e uma sessões de eletrochoque, drogas pesadíssimas, maus tratos, Carrano conta no livro - que deu origem ao filme Bicho de Sete Cabeças - que nem sequer recebeu diagnóstico em todo esse tempo. O Canto dos Malditos foi proibido em 2002 e só voltou a circular em 2004. Além de Carrano nunca ter sido indenizado, foi condenado a pagar 60.000 reais aos hospitais onde esteve internado. "Nâo existem indenizações às vitimas psiquiátricas, com exceção recente de um caso de abuso na aplicação de eletroconvulsoterapia em São Paulo", conta ele que hoje luta contra o que chama de "chiqueiros psiquiátricos". 

O país chegou aos anos 90 (a "década do cérebro" da Organização Mundial de Saúde, pelo avanço em remédios contra depressão e outros transtornos mentais) com quase 100.000 pessoas internadas; e a 2006, com mais de 300.000 mortos (ao longo de 154 anos) dentro dos muros dos manicômios, diz o doutor Nacile: "A morte é a face mais cruel da violência inevitável dos hospitais. Os familiares assinam um termo em que a instituição não se responsabiliza por eventuais acidente,. suicídios e outras ocorrências durante a internação. Por isso, raramente denunciam os abusos e violências de que tomam conhecimento. Mesmo com a diminuição dos leitos, o número de mortes se mantém. De 1992 a 2005 morreram dentro dos manicômios aproximadamente 16.000 pessoas. e outras tantas fora de seus muros. mas em decorrência de violências praticadas em seu interior". A violência consiste na administração errada de remédios e de eletrochoque, descaso e contenções malfeitas, por exemplo.

Em 1991 foi encontrado no Juquery um cemitério clandestino com restos de 30.000 cadáveres de homens, mulheres, crianças, bebês e pedaços de corpos, como braços e pernas. "Houve uma denúncia anônima à SOS Saúde. A Assembléia Legislativa de São Paulo constituiu uma comissão parlamentar para investigar o caso", conta Maria Cristina. "Achamos uma italiana que desembarcou no Brasil, mas se perdeu do marido. Como tinha quatro filhos pequenos, nenhum dinheiro e não falava português, não poderia ser aproveitada como força de trabalho. Ela e os quatro filhos foram parar no Juquery e lá ficaram até morrer. Estão enterrados lá. " Sobre presos políticos, nenhum teria morrido no Juquery, mas pelo menos quatro têm registro de entrada: David Capistrano da Costa, ex-deputado do PCB, desaparecido em 1974; Antônio Carlos MeIo Ferreira, o Melinho, da VAR Paimares; Aparecido Galdino Jacinto e Dorgival de Souza Damasceno, da Ação Libertadora Nacional. Muitos dos restos mortais de crianças, segundo Cristina, seriam de filhos de internas com enfermeiros, médicos ou funcionários (não de internos, já que as alas eram separadas em masculinas e femininas). 

E em 1991 aconteceu um incêndio "misterioso" nos arquivos do hospital, durante as investigações. O segundo, porque em 1978 os livros do cemitério haviam pegado fogo e ninguém foi condenado. apesar deter sido provado que o incêndio foi provocado. O processo gerado pelo relatório da comissão da Assembléia foi arquivado por falta de provas e porque "os corpos já estão lá há muitos anos", declarou o doutor Carlos Calsavalla, promotor de Franco da Rocha. Hoje existe uma capela no local, onde há missas e visitas no Dia de Finados.

Nota do Blog: estamos postando trechos de CIDADE DOS ESQUECIDOS, de Andrea Dip, jornalista, por reputarmos este artigo como sendo relevante e da maior importância para esclarecer pessoas ingênuas, além de lutarmos por reformas abrangentes, que nos conduza a um estágio civilizatório digno... e esperamos que todos dediquem, um pouco de tempo,  à leitura do que ela escreveu, neste libelo que denuncia e revela de tantas mazelas ocultas das pessoas comuns, sobre o que os manicômios representaram e representam para o que chamamos de civilização. O artigo será publicado de modo ainda incompleto, pois esperamos acrescentar mais um pequeno trecho que lança luz na escuridão que reina sobre o tema. Infelizmente não poderemos publicar tudo, na íntegra. Mas os fragmentos do que já postamos dá para chegarmos á uma conclusão: muita coisa tem que mudar para melhor, incluindo as chamadas "clínicas" e "centros" de recuperação para dependentes químicos, que também estão se transformando em verdadeiros cemitérios de gente sepultada, em vida, inclusive pessoas portadoras de doenças mentais.


Balada do Louco

Das minhas passagens por lugares destinados a cuidar da recuperação de dependentes químicos, apenas uma, me conduziu ao caminho duradouro da recuperação e só recaí foi por um ato de protesto voluntário. As outras instituições, com equipes de resgate, salas de contenção, agentes penitenciários, não me serviram de nada, salvo como uma espécie de castigo, em que vivia submetido a um regime prisional que feria de morte os 12 passos. 
Mas porquê escrevo isto: porque a ignorância e o preconceito imperam e a mentira é amiga de quase todos os sentimentos doentios. Então quando alguém diz que fulano de tal foi internado, ou tomou um remédio tarja preta, significa, nessas cabecinhas, que o cara é louco.

Nunca estive em um manicômio, em um hospício. Nunca recebi nas "casas" prisionais, tratamento de ordem psiquiátrico.  São lugares onde prevalece a lei do lucro. Porém, muita gente se serve destas instituições prisionais para depositar pessoas com transtornos e doenças mentais, como também depositam menores de idade e pessoas que cumprem "sentença" de ordem judicial. Um saco de gatos, onde logo aparecem facções, como em presídios. 

Então o meu "tratamento" resumia-se aos 12 passos e tudo era diferente dos manicômios. Mas o bicho de sete cabeças me atingia. São locais inadequados para quem deseja, realmente, recuperar-se espiritualmente. 

Mas pouco importa dizer essas coisas porque a maldade do gênero humano é por demais conhecida. Por isso faço questão de postar a letra de uma composição de Rita Lee e de Arnaldo Baptista, intitulada Balada do louco, que me diz muita coisa e que serve como uma sátira aos "normais" que são movidos por desajustes comportamentais que ferem a verdade. A  Balada diz o seguinte:

"Balada Do Louco
Os Mutantes

Dizem que sou louco por pensar assim
Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz

Se eles são bonitos, sou Alain Delon
Se eles são famosos, sou Napoleão
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz

Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu

Se eles têm três carros, eu posso voar
Se eles rezam muito, eu já estou no céu
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz

Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu

Sim, sou muito louco, não vou me curar
Já não sou o único que encontrou a paz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, eu sou feliz"

Assim, sem dar trela pra futricas e falsas versões de fatos, vou levando minha vida cantando e algumas vezes dançando, para os males espantar. Finalizo com aquele conhecido ditado popular: "De médico e louco, todos tem um pouco, ou, na visão de Caetano: de perto ninguém é normal!

Renato Russo de A a Z


DROGAS 

■ Não quero mais ficar usando drogas, a ponto de perder o fio da meada. E que nem doce: pode ser bom comer um doce de vez em quando, mas o excesso é que te faz perder a cabeça. Tudo que é excesso não presta, como excesso de discos vendidos e excesso de talento, que não é meu caso. Teve fase em que eu precisei tomar droga para funcionar. Agora, quero parar e ficar com os pés no chão. (1987) 

■ Há um consumo de drogas muito grande em apresentações de rock, isso é notório. Uma coisa muito comum entre a juventude de Brasília é o loló, e ele leva à violência. Sou contra qualquer tipo de drogas. É como a gente diz em Conexão amazônica: "Alimento para cabeça nunca vai matar a fome de ninguém". (1988) 

■ Parei não foi por medo, nem nada. Simplesmente não tinha mais prazer em tomar um ácido; me sinto bem quando estou feliz e careta. Antigamente, quando estava feliz, usava a droga para exacerbar e me 
sentir melhor ainda. Bebida também não é a solução. As coisas estão de tal maneira que o que vai te dar felicidade é, justamente, ficar careta orque todo mundo está louco. (1988) 

■ Você não pode ter uma boa relação com as drogas. As drogas são uma coisa muito negativa. (1989) 

■ Em Brasília, rolou aquela coisa bem de Christiane E. Eu fiquei até muito chateado, porque depois, num review do show da Legião, falaram que eu fazia posturas nazistas, falava de drogas como se soubéssemos o que era aquilo. Eu não pude falar na época, mas me deu vontade de dizer: "Olha, a gente não só sabe como é, como a gente viveu isso também". Agente fazia qualquer coisa para se divertir. Se alguém tivesse uma idéia, tipo "vamos dar um passeio de bicicleta", todo mundo ia. Era tão louco! Passeio de bicicleta ou baseado! Não tinha muito parâmetro. Era uma coisa, naturalmente, muito irresponsável. (1989) 

■ Deus me livre! Eu quase morri com isso. Eu tenho me esforçado muito para sair, e estou conseguindo. (1991) 

■ Eu não sei se seria a favor da liberação total, mas acho que não pode continuar como está. A droga é só mais um sinal de que as pessoas são manipuladas. Porque, se as pessoas tivessem mais dignidade, mais respeito entre si, eu acho que a droga ficaria no seu devido lugar. Acredito que existem pessoas que gostam de usar drogas, gente que sente prazer com isso, mas elas devem ser uns três por cento da população. Hoje em dia, todo mundo usa, e quer, porque não se tem saída para nada. Ninguém se encontra. (1991) 

■ A coisa vai num crescendo. Depois que você faz sucesso, todos te oferecem, aparecem os traficantes de plantão. Experimentei de tudo, mas sempre terminava em álcool e tranquilizantes. No bar e na farmácia. 
(1994) 

■ Eu era assim: o álcool eu pegava no bar e o tranquilizante eu pegava na farmácia. Hoje eu não faço mais nada, absolutamente nada. A única coisa que sobrou foi o cigarro, e eu estou tentando largar essa coisa. (1994) 

■ De repente, é um saco ter a pessoa sempre de mau humor, pelos cantos. Todo mundo se divertindo na piscina do hotel e eu lá, trancado. No começo, tem até um certo glamour, mas não leva a nada. (1994) 

■ Sei que, quando o Sid Vicious, do Sex Pistols, morreu, tomei o primeiro porre da minha vida. E, a partir daí, comecei a usar muitas drogas. É, quer dizer... eu já usava, mas era em fim de semana. Até essa época, eram só bagulhinho e álcool. A cannabis [maconha], você sabe, afeta a memória, mas acho que já tínhamos formado o Aborto Elétrico. (1995) 

■ Eu acho muito bonito o Robert Plant e o Jimmy Page dizendo: "Quando a gente usava heroína, nossa espiritualidade foi para o buraco". E vai. Se você está quebrando o teu ritmo e a tua energia, você vai pagar por isso. É espiritualidade zero. Se você encher este copo pela metade, tem gente que vai achar que ele está quase vazio, mas tem gente que vai achar que ele está quase cheio. (1995) 

■ Infelizmente, a droga é um meio de confraternização social. No meio artístico, quando você faz sucesso, todo mundo oferece droga. E você vai pegando porque o negócio é bom. De madrugada, no estúdio, quando alguém faz uma presença, você vai tomar um cafezinho? E comigo ainda tinha essa história de romantizar. E o pior é que a coisa chega a um ponto que é vergonhoso. Eu vi que a situação estava feia quando começaram a dizer que eu armei cena em festa que eu nem fui, só porque já era lugar-comum. É completamente degradante, e eu gosto de falar sobre isso porque me dá força. Faz parte da programação, para nos lembrar como era ruim. E o negócio é que não tem meio-termo. 
(1995) 

■ Tomei ácido umas quatro vezes, e foi uma coisa que realmente mudou minha cabeça. Foi uma coisa de "uh!", de sentir as moléculas, o ying-yang, tudo. Você chega para o sofá: "Oi, sofá, você é meu amigo, sabe?". É uma coisa muito assustadora. Agora que estou limpo, vejo o quanto a droga é pesada. Se eu preciso de um baseado para gostar de um filme, é porque o filme não presta, eu não deveria estar assistindo. (1996) 

" AS VERDADEIRAS RAZÕES DO ANONIMATO " - AABR

Escrito pelo Dr. Eduardo  Mascarenhas


Os grupos Anônimos - que se diga em alto e bom som - não são contra o fato de alguém ser celebridade. Muita gente famosa - atores, cantores, políticos, empresários, astros e estrelas de televisão - já fez ou ainda faz parte desses grupos. Muitos deles, aliás, só não caíram no anonimato, arruinados pelo alcoolismo ou pelas drogas, por causa dessa participação...

O que não é possível é tornar-se célebre às custas dos grupos anônimos. Como cidadão, cada um é livre para fazer o que quiser ou o que puder. Como membro de um grupo anônimo, está sujeito a restrições. Estas, contudo, limitam-se aos meios de comunicação, onde nenhum membro deve mostrar seu rosto ou falar em nome da organização, cuja identidade paira além das personalidades de seus membros e não se confunde com elas. Ninguém deve mostrar o rosto, porque um grupo anônimo não tem um rosto; tem todos os rostos. Ninguém deve falar em nome de um grupo anônimo, porque ele não tem uma fala; está aberto para todas as falas.

Fora dos meios de comunicação ninguém é obrigado a preservar o seu anonimato enquanto membro de um grupo anônimo. Fora do espaço público, no espaço privado, qualquer um pode revelar sua condição a quem quiser, se este for o seu desejo. O que não deve é sair dizendo por aí o nome das outras pessoas que fazem parte de seu grupo. Simples questão de ética: afinal os outros membros têm direito ao sigilo e à privacidade.

Esse direito ao sigilo e à privacidade é tão importante para o funcionamento dos grupos anônimos que jamais será solicitado a ninguém um documento, folha corrida, certificado de bons antecedentes ou comprovação de nada. Mais: ninguém é obrigado sequer a usar seu verdadeiro nome, nem relatar qualquer fato que seja revelador de identidade. Pelo contrário, quando um membro se levanta para dar um depoimento, não deve dizer seu sobrenome e pode usar o nome que quiser. Até o verdadeiro.

É que um grupo anônimo não está interessado em olhar pelo buraco da fechadura a vida íntima de ninguém, nem em obrigar seus membros a nenhum strip-tease psicológico. Só tem como propósito enfrentar a compulsão e a dependência química a que seus membros se vêem presos.

Um grupo anônimo não é anônimo para ser algo fechado ou escuro, mas para ser completamente aberto. Lá, entra quem quer, fica quem quer. Se alguém não gostar e quiser ir embora, não lhe será cobrado aviso-prévio ou satisfação. E pode voltar, sem explicações.

Por outro lado, se um membro de um grupo anônimo transgredir todas essas recomendações, nada será feito contra ele! Não existem punições! Nada é imposto. Não é obrigado. Tudo é, no máximo, sugerido.


Dr. Eduardo  Mascarenhas   (  Psicanalista falecido  )

domingo, 20 de abril de 2014

Kurt Cobain bate na porta do Céu...


UM ALÉM LEONARD COHEN 
Seattle, Washington 
Abril de 1994 - maio de 1999

"Give me a Leonard Cohen Aftworld, so I can sigh eternally" 
[Dêem-me um além Leonard Cohen para que eu possa suspirar eternamente.] 
De "Pennyroyal Tea". 


NA MANHÃ DE SEXTA-FEIRA, 8 de abril, o eletricista Gary Shith chegou ao número 171 do Lake Washington Boulevar. Smith e vários outros vinham trabalhando na casa desde quinta-feira, instalando um novo sistema de segurança. A policia passara duas vezes por lá e pedira aos trabalhadores que a avisasse caso Kurt aparecesse. Às 8h 40 da sexta-feira, Smith estava perto da estufa e olhou para dentro dela. "Eu vi um corpo estendido lá no chão", contou ele depois para um jornal. "Pensei que fosse um manequim. Depois notei que havia sangue na orelha direita. Vi uma espingarda estendida ao longo de seu peito, apontando para o seu queixo." Smith ligou para a policia e, em seguida, para sua empresa. Um amigo do plantonista da empresa incumbiu-se de avisar a emissora de rádio KXRX. "Ei, caras, vocês vão ficar me devendo uns bons ingressos para o Pink Floyd por isso", disse ele ao Dj Marty Riemer. 

A policia confirmou que o corpo de um jovem havia sido encontrado na casa dos Cobain e a KXRX divulgou a noticia. Embora a policia ainda não o tivesse identificado, os primeiros boletins noticiosos 
especulavam que se tratava de Kurt.

Após vinte minutos, a KXRX recebeu um telefonema choroso de Kim Cobain, que se identificou como irmã de Kurt, e perguntou, furiosa, por que eles estavam transmitindo um boato tão falacioso. Disseram a ela que ligasse para a policia. Kim ligou e, depois de ouvir a noticia, ligou para sua mãe. Um repórter do Aberdeen Daily World logo apareceu na porta da casa de Wendy. 

Sua declaração seria passada para a Associated Presss e reproduzida no mundo inteiro: "Agora ele se foi e entrou para aquele clube estúpido. Eu disse a ele para que não entrasse para aquele clube estúpido". Ela estava se referindo coincidência de que Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison e Kurt haviam morrido aos 27 anos de idade. Mas uma outra coisa que sua mãe havia dito não era noticiada em nenhum outro jornal — embora nenhum pai que tenha ouvido a noticia da morte de Kurt precisasse lê-la para saber da perda que ela sofrera. Ao final da entrevista, Wendy disse sobre seu único filho homem: "Eu nunca mais vou abraça-lo novamente.  Não sei o que fazer. Não sei para onde ir". 

Don ficou sabendo da morte do filho pelo rádio — ele estava arrasado demais para conversar com repórteres. Leland e Íris souberam pela televisão. Íris teve de se deitar depois da notícia — ela não sabia se o seu coração debilitado poderia suportar aquilo. 

Enquanto isso, em Los Angeles, COurtney havia se tornado paciente do Exodus, depois de ter se internado na quinta-feira á noite. Na mesma quinta-feira ela havia sido detida no hotel Península depois que a policia chegou ao seu "Quarto sujo de vômito e sangue" e encontrou uma seringa, um bloco de receituário em branco e um pequeno pacote que eles acreditaram tratar-se de heroína (verificou-se que a substância eram cinzas de incenso hindu). 

Depois de ser libertada mediante uma fiança de 10 mil dólares, ele se registrou para um tratamento como paciente internada, desistindo da desintoxicação em hotel. 

Na manhã da sexta-feira, Rosemary Carroll chegou ao Exodus. Quando Courtney viu a expressão no rosto de Rosemary, soube da noticia antes mesmo de ouvi-la. As duas mulheres finalmente se entreolharam durante vários minutos em total silêncio até que Courtney proferiu uma única pergunta; "Como?" Courtney saiu de Los Angeles num Learjet com Frances, Rosemary, Eric Erlandson e a babá jackie Farry. Quando chegaram á casa do lago Washington, ela estava cercada por equipes dos telejornais, que colocaram lonas sobre a estufa para que a mídia não ficasse espiando o que havia lá dentro. 

Antes que os toldos fossem armados, o fotógrafo Tom Reese do Seattle Times tirou algumas fotos da estufa através de um buraco no muro. "Eu achei que poderia não ser ele", lembra Reese, "Pois podia ser qualquer um. Mas quando vi o tênis, eu soube." A foto de Reese, que saiu na primeira página do Seaatle Times de sábado, mostrava o que se via pelas portas francesas, ou seja, metade do corpo de Kurt — sua perna direita, o tênis e seu punho cerrado junto a uma caixa de charutos. Naquela tarde, o legista de King County emitiu uma declaração confirmando o que todos já sabiam: 

"A autópsia demonstrou que Cobain morreu de um ferimento de tiro de espingarda em sua cabeça e neste momento o ferimento parece ter sido auto-infligido". O dr. Nikolas Hartshorne fora quem realizara a autópsia — a tarefa foi particularmente comovente porque outrora ele havia promovido uma apresentação do Nirvana na faculdade. "Na época relatamos ferimento de tiro de espingarda "aparentemente" auto-infligido porque ainda queríamos colocar todos os pingos nos is", lembra Hartshorne. 

"Não havia absolutamente nada que indicasse que se tratava de alguma coisa diferente de um suicídio." No entanto, devido a atenção da mídia e da celebridade de kurt, a policia de Seattle apenas concluiu a 
investigação depois de quarenta dias e passou mais de duzentas horas entrevistando os amigos e a família de Kurt. 

Apesar de rumores em contrário, foi possível identificar o cadáver como sendo de kurt, embora seu aspecto fosse macabro: as centenas de bolinhas de chumbo do cartucho de espingarda haviam expandido sua cabeça e o haviam desfigurado. A policia retirou digitais do corpo e as impressões correspondiam aquelas já arquivadas no caso da prisão por violência doméstica. Embora uma análise posterior da espingarda concluísse que "quatro fichas de impressões latentes levantadas não contêm nenhuma impressão legível", Hartshorne disse que as impressões na arma não eram legíveis porque esta teve de ser retirada á força da mão de Kurt depois que se instalara o rigor mortis. "Eu sei que suas impressões digitais estão lá, porque ele estava com a arma na mão", explica Hartshorne. Determinou-se que a data da morte foi o dia 5 de abril, embora possa ter sido 24 horas antes ou depois disso. Muito provavelmente. Kurt já estava morto na estufa enquanto várias buscas ocorriam no prédio principal da residência. 

A autópsia encontrou traços de benzodiazepinas (tranqüilizantes) e heroína no sangue de Kurt. O nível de heroína encontrado era tão alto que mesmo Kurt — famoso pela enorme quantidade que tomava — não poderia ter sobrevivido por muito mais tempo do que o que levou para disparar a arma. 

Ele havia lavrado um feito bastante notável, embora portasse semelhanças com os de seu tio Burle (tiros na cabeça e no abdome) e os de seu bisavô James Irving (que se esfaqueara no abdome e depois rasgara os pontos): Kurt conseguiria se matar duas vezes, usando dois métodos igualmente fatais. 

Courtney estava inconsolável. Insistiu para que a policia lhe desse o casaco de veludo manchado de sangue de Kurt, que ela vestiu. Quando os policias finalmente deixaram o local, e com apenas um guarda de segurança como testemunha, ela reconstituiu os últimos passos de Kurt, entrou na estufa — que ainda tinha de ser limpa — e mergulhou as mãos em seu sangue no chão, ajoelhada, ela rezou, uivou e gemeu de dor, ergueu as mãos cobertas de sangue para o céu e gritou "Por quê?". Ela encontrou um pequeno fragmento do crânio de Kurt com cabelo preso a ele. Ela lavou e passou xampu nesse horripilante suvenir. E depois começou a pagar sua dor com drogas. Naquela noite, ela vestiu várias camadas de roupas de Kurt — elas ainda tinham o seu cheiro. Wendy chegou, e mãe e nora dormiram na mesma cama, agarrando-se uma á outra durante a noite. 

No sábado, 9 de abril, Jeff Mason foi incumbido de levar Courtney até a agência funerária para ver o corpo de Kurt antes de ser cremado — ela já tinha solicitado que fossem feitos moldes de gesso de suas mãos. Grohl também foi convidado e declinou do convite, mas Krist compareceu, chegando antes de Courtney. Ele passou alguns momentos a sós com seu velho amigo e desatou a chorar. Quando ele saia, Courtney e Mason foram introduzidos na sala de inspeção. Kurt estava sobre uma mesa, vestido com suas roupas mais elegantes, mas seus olhos tinham sido costurados. Era a primeira vez em dez dias que Courtney viu o marido e foi a última vez que seus corpos físicos ficaram juntos. Ela acariciou seu rosto, falou com ele e cortou uma mecha de seus cabelos. Depois, baixou as calças dele e cortou uma mecha de seus pêlos púbicos — seus adorados púbicos, os pelos que ele esperara por tanto tempo quando adolescente, de algum modo precisavam ser preservados. Finalmente, ela subiu em cima de seu corpo, abraçando-o com as pernas e recostou a cabeça em seu peito e lamentou: "Por que? Por quê? Por quê?". 

Naquele dia os amigos tinham começado a chegar para confortar Courtney e muitos trouxeram drogas, que ela ingeria indiscriminadamente. 

Entre as drogas e seu pesar, ela estava uma calamidade. Os repórteres telefonavam a cada cinco minutos e, embora ela não tivesse muito em condições de falar, de vez em quando atendia ás ligações para fazer perguntas, não para respondê-las: "Por que Kurt fez isso? Onde ele esteve na semana passada?". Como muitos amantes enlutados, ela se concentrava nos detalhes minúsculos para se desviar de sua perda. Ela passou duas horas ao telefone falando com Gene Stout, do Seattle Post-Intelligencer, ponderando essas cismas e declarando: "Eu sou durona e posso agüentar tudo. Mas não 
posso agüentar isto". A morte de Kurt ganhou a primeira página do New York Times e dezenas de repórteres de televisão e jornais desembarcaram em Seattle, tentando cobrir uma matéria em que poucas fontes falariam com a mídia. A maioria deles enviava artigos opinativos sobre o que Kurt significava para uma geração. O que mais se poderia dizer? 

Era preciso organizar um funeral. Susan Silver da Soundgarden tomou a iniciativa e marcou um culto reservado em uma igreja e, simultaneamente, uma vigília pública á luz de velas no Seattle Center. 

Naquele fim de semana, uma lenta procissão de amigos chegou á casa do lago Washington — todos pareciam com neurose de guerra, tentando encontrar explicações para o inexplicável. Para aumentar o seu pesar havia o desconforto físico: na sexta-feira, quando Jeff Mason chegou, encontrou o tanque de óleo completamente seco. Para aquecer a enorme residência, ele começou a enviar limusines para comprar lenha da Safeway. "Eu estava quebrando cadeiras porque a lareira era o único meio de aquecer a casa", lembra ele. Courtney estava no quarto do casal no andar de cima, embrulhada em camadas de roupas de Kurt, gravando uma mensagem para ser apresentada na celebração pública. 

Meditação Diária - Narcóticos Anônimos

Medo

Segunda-feira, 21 de Abril de 2014

Descobrimos que não tínhamos escolha: ou mudávamos completamente nossa antiga maneira de pensar, ou então voltávamos a usar.
Texto Básico p. 95


Muitos de nós descobrem que nossa antiga maneira de pensar era dominada pelo medo. Tínhamos medo de não conseguir nossas drogas ou de não conseguir o bastante. Tínhamos medo de ser descobertos, presos e encarcerados. Além disto, existiam os medos de problemas financeiros, perda do lar, overdose e doença. E nosso medo controlava nossas ações.

Os primeiros dias de recuperação não foram diferentes para muitos de nós; naqueles dias, o medo também dominava nossos pensamentos. “E se ficar limpo doer demais?” – nós nos questionávamos. “E se não conseguirmos? E se as pessoas em NA não gostarem de mim? E se NA não funcionar?” O medo por trás destes pensamentos pode ainda controlar nosso comportamento, nos impedindo decorrer os riscos necessários para ficar limpos e crescer. Pode parecer mais fácil nos resignar a algum fracasso, desistindo antes de começar. Mas este tipo de pensamento só nos leva à recaída.

Para ficar limpo, devemos encontrar a boa vontade para mudar nossa antiga maneira de pensar. O que já funcionou para outros adictos pode funcionar para nós – mas devemos estar dispostos a tentar. Devemos trocar nossas antigas dúvidas cínicas pelas novas afirmações de esperança. Quando fizermos isso, veremos que o risco vale a pena.

Só por hoje eu rezo pela boa vontade para mudar minha antiga maneira de pensar e pela capacidade de superar meus medos.

FONTE E CRÉDITO: http://www.csa-saopaulo.org/

Reflexão Diária - Alcoólicos Anônimos

SEGUNDA-FEIRA, 21 DE ABRIL DE 2014

CULTIVANDO A FÉ 

Não penso que podemos fazer alguma coisa muito bem neste mundo, a não ser que nós a pratiquemos. E não acredito que nós façamos bem o programa de A.A. a não ser que pratiquemos.

Devemos praticar... adquirir o espírito de serviço. Devemos tentar adquirir alguma fé, o que não é fácil fazer, especialmente para a pessoa que tem sido sempre muito materialista, seguindo o modelo da sociedade atual. Porém, penso que a fé pode ser, mesmo que lentamente adquirida; ela precisa ser cultivada. 

Não foi fácil para mim e, suponho que é difícil para qualquer um... 
DR. BOB E OS BONS VETERANOS, p. 307, 308

Muitas vezes o medo é a força que me impede de adquirir e cultivar o poder da fé. O medo bloqueia minha apreciação de beleza, tolerância, perdão, serviço e serenidade. 


Frases de Keith Richards, um Rolling Stone


"As ocasiões em que me dei mal foram quando obtive drogas com gente que não conhecia, e elas vieram misturadas com estricnina. Eu lá, deitado na cama, e as pessoas em volta dizendo, "bom, ele ainda está respirando". Era um pouco como uma história de Allan Poe, ser enterrado vivo. Era possível ouvir o que diziam, mas eu não conseguia responder porque estava paralisado."

      

Mais uma estrela que brilha no céu!

Neusa Maria Goulart Brizola

Outro dia citei Neuzinha Brizola e esqueci de lembrar que a mesma já havia falecido, devido a complicações pulmonares decorrentes de uma hepatite C.

Lembrei dela, naquele dia,  porque foi ela quem divulgou para a nação brasileira que a heroína já estava sendo posta à venda no Brasil. 

Morreu em 27 de abril de 2011, recebeu a extrema-unção, pois era católica, e foi sepultada junto aos pais, no cemitério de São Borja, Rio Grande do Sul.

Neuzinha levou uma vida muito difícil, carregada de sofrimento, vendo e convivendo com dramas e com as incansáveis perseguições direcionadas ao, tio, Jango e ao pai, Leonel Brizola e, consequentemente, à família. 

Naturalmente a ditadura tirava proveito da adicção dela para atingir o pai, líder influente e que guarda uma história de bravura, em defesa das liberdades democráticas, no Brasil, desde antes e durante a fase obscurantista que vivemos a partir dos idos de 1964. 

Neusinha não foi a única filha de políticos perseguidos, pela ditadura, a cair nas garras da adicção; a diferença é que o grau de insanidades cometidas por ela, eram aproveitadas pela ditadura, através dos noticiários sensacionalista, da grande imprensa.  Ela era manchete, virava notícia, porque ela era do jeito que era e eu sempre compreendi as loucuras dela com os olhos da generosidade, da compreensão e nunca quis enxerga-la pelo prisma do ódio, vez que eu também lutei contra o ódio instaurado no Brasil, sem vínculo orgânico algum.

 Também tive um momento de "queda" e não foi por um vacilo meu, mas por uma armação que visava alcançar a reputação de meu pai, que foi mais um perseguido político.  A PF (que loucura e quantas coisas erradas foram cometidas antes da interceptação do carro, em que eu apenas pegava uma carona, forçado, por um amigo) me levou em cana, numa ação dramatológica e teatral impressionante. Tudo calculado. Fui algemado e jogado em uma cela da PF e sai porque tive excelente advogado. Também não devia nada. Não havia cometido crime algum, não portava nada, era totalmente inocente naquela encenação toda. Foi uma loucura, mais uma pitada de ação, em minha vida de aventuras. 

Esquecer é o melhor remédio! 

Ela, Neuzinha, contava 56 anos de idade quando partiu... Nos anos 70, era costume de adictos, na época meros toxicômanos, tomados de tristeza pela "partida" precoce de qualquer companheiro, olhar para o céu e dizer: "mais uma estrela brilha no céu!" 

Esta era uma manifestação da nossa solidariedade, expressão do nosso amor fraternal, do carinho, pois todos padecíamos do mesmo problema, com suas singularidades.

A pior das drogas  era a ditadura! 

Neuzinha, hoje, compõe a mais bela galeria de adictos que brilha lá do alto, no céu, acima de todos nós, no firmamento. A ela rendemos nossa singela homenagem!

Na paz, Neuzinha ! 

O CONCEITO DE SOBRIEDADE

Dr. Eduardo Mascarenhas

Um abstêmio às vezes passa anos sem beber ou consumir drogas. Mas acaba recaindo. Nos grupos anônimos seu comportamento frequentemente beira o fanatismo. Parece até que trocou sua compulsão. Investe agora contra o alcoolismo ou as toxicomanias com a mesma voracidade que investia sobre a bebida ou as drogas. Tornou-se uma espécie de alcoólatra ou drogado de cabeça para baixo. Não é sóbrio sequer na sua maneira de enfrentar suas compulsões.

A sobriedade representa um grau mais profundo de pacificação mais profunda das emoções. Significa a assimilação mais radical da moderação. É uma superação dos apetites pantagruélicos e das fissuras. Requer, portanto, um trabalho mais abrangente do que aquele dirigido para a simples interrupção do consumo das drogas e do álcool. A pessoa como um todo terá de realizar uma ampla reformulação de seu jeito de ser e reagir.

A grande meta dos grupos anônimos é alcançar a sobriedade. Em todos os sentidos do termo. É preciso superar estados de fissuras para atingir os estados psíquicos alinhavados pelos fios da moderação.

Para alcançá-los, os grupos anônimos recomendam a seus membros os Doze Passos, que representam um programa, um caminho para chegar à sobriedade. Ninguém, contudo, é obrigado a seguí-los. Não são mandamentos, são sugestões.

Dr. Eduardo Mascarenhas - Psicanalista 

Crédito: AABR

sábado, 19 de abril de 2014

Meditação Diária, Narcóticos Anônimos


Domingo, 20 de abril de 2014
Desligamento


"A adicção é uma doença da família, mas só conseguimos modificar a nós mesmos."

IP Nº 13, “Juventude e recuperação”

Muito de nós vêm de famílias gravemente conturbadas. Às vezes, a insanidade que reina entre nossos familiares parece esmagadora. Às vezes, sentimos vontade de fazer as malas e mudar para longe. 


Rezamos para que nossa família se una a nós na recuperação, mas, para nossa grande tristeza, isto nem sempre acontece. Às vezes, apesar de nossos grandes esforços para levar a mensagem, descobrimos que não podemos ajudar aqueles por quem temos a maior estima. Nossa experiência em grupo tem nos ensinado que, frequentemente, estamos tão próximos de nossos parentes que não podemos ajudá-los. Aprendemos que é melhor deixá-los aos cuidados de nosso Poder Superior. 


Descobrimos que, quando paramos de tentar apaziguar os problemas de nossos familiares, damos o espaço necessário para que eles possam resolver suas próprias vidas. Ao relembrá-los de que não somos capazes de resolver seus problemas por eles, nos damos à liberdade de viver nossas próprias vidas. Temos fé que Deus ajudará nossos familiares. Muitas vezes, a coisa mais importante que podemos dar às pessoas que amamos é o exemplo contínuo de nossa recuperação. Pela sanidade de nossa família e por nossa própria sanidade, devemos deixar nossos familiares encontrarem seus próprios caminhos de recuperação.


Só por Hoje  eu vou procurar fazer minha programação e deixar minha família aos cuidados do Poder Superior.




Credito: http://www.csa-saopaulo.org/

MATURAÇÃO PSICOLÓGICA


RE-VIVENDO - MATURAÇÃO PSICOLÓGICA

(Fator determinante para a recuperação em A.A.)

Existem algumas características psicológicas que são freqüentemente identificadas na composição da personalidade da maioria dos alcoólicos. Dentre elas destacamos a imaturidade psicológica.

Ela se destaca por ser responsável por vários comportamentos estereotipados que dificultam ou até impossibilitam a prática do programa de recuperação de A.A. A imaturidade psicológica caracteriza um individuo que cresceu em estatura e avançou em idade cronológica, tornando se um homem ou uma mulher adulto, mas mantém sua psique infantilizada.

Como toda ação praticada pelo ser humano é efetuada através do comando de um pensamento se o pensamento for infantil as atitudes manifestadas também são imaturas.As principais características de imaturidade psicológica são:

(1)-Atitudes extremamente egocêntricas, demonstrando total desconsideração pelo outro, O indivíduo imaturo psicologicamente considera ser ele próprio o centro do universo e só percebe o mundo em função  dele. Acredita que tudo e todos giram em torno dele.

(2)-Intenso sentimento de onipotência que o leva a pensar ser ele o próprio Poder Superior. Nem cogita a possibilidade de existir alguém ou alguma coisa melhor ou superior a ele. Através do egocentrismo esse individuo pensa ser o centro do universo e através do sentimento de onipotência acredita que o mundo só gira porque ele existe e o faz girar. No seu dia a dia essa característica se manifesta na sua dificuldade em acatar ordens. Reconhece as normas e as leis, muitas vezes as considera necessárias mas não as respeita por acreditar que elas não foram feitas para ele obedecer, só para os outros. Freqüentemente utiliza-se de uma forma de pensamento mágico que o faz crer que nada de ruim acontecerá a ele. As fatalidades existem somente para os outros. Sentindo-se imune a qualquer infortúnio, quando ocorrem problemas graves em sua vida sua reação é de simplesmente ignorá-los como se não fizessem parte da realidade.

(3)-Não é capaz de dividir nada com ninguém, nem mesmo seus sentimentos. Guarda os só para si sufocando suas emoções a tal ponto que acaba por perder o contato com as mesmas, tornando-se uma pessoa fria e indiferente.

(4)-Orgulhoso e prepotente, não tolera criticas mesmo que construtivas, pois acredita que está sempre com a razão. Quando alguma coisa não acontece como planejou a “culpa” é do outro que não agiu como deveria. Ele nunca está errado.

(5)-Como pensa que é um ser perfeito não consegue aceitar qualquer doença nele nem nos outros. Essa característica dificulta a aceitação de ser portador de uma doença incurável como o alcoolismo.

(6)-Sua intolerância e frustração o levam a alimentar sentimentos de ira e vingança contra todos aqueles que acredita serem responsáveis pelo fracasso em sua vida.

(7)-Extremista, não consegue compreender nem aceitar qualquer meio termo. Para ele as coisas são tudo ou nada, branco ou preto, vida ou morte.              

FONTE: Vivência 126 Jul/Ago 2010


A REFORMA MANICOMIAL - CIDADE DOS ESQUECIDOS


A reforma, por Andrea Dip

o movimento anti manicomial nasce no Brasil nos anos 70 com o pressuposto de que um lugar que é feito para excluir pessoas consideradas "fora do padrão" é irreformável e não pode tratar ou curar, principalmente por se pautar pela vigilância, pela ideia da custódia, da disciplina."O manicômio não é humanizável.Ele é feito para alguém 'incapaz e perigoso'. É uma casa de correção, assim como a penitenciária, o reformatório. Você priva aquele que não se comporta bem de comer, por exemplo.

Então,você premia quem não é louco,e pune quem se comporta mal,que é quem precisa de cuidados", diz Paulo Amarante.

Mas quem é louco? "Encarcera-se a subjetividade de alguém, tira-se essa pessoa do convívio familiar e social e usa-se dos piores métodos possíveis para que esse louco' pare de ter comportamentos que a sociedade considera indigestos. Duas grandes questões associadas à doença mental são a periculosidade e a incapacidade.

Isso precisa ser desconstruído culturalmente", diz Patricia Villas Boas, mestre em psicologia social pela USP e uma das coordenadoras do Fórum Paulista de Luta Anti manicomial.

Tal discussão não é nova. Freud,Jung, Winnicott e outra porção de psiquiatras pensadores, em épocas diferentes, já tentavam entender o homem como ser social, que a família, a cultura e os acontecimentos vividos podem influenciar, ou até desencadear algum tipo de doença mental. Winnicott, por exemplo, dizia que as doenças psíquicas, principalmente as mais graves,tinham a ver com perturbações que ocorreram durante a fase inicial da formação do psiquismo,quando o meio ambiente da criança é constituído pelas relações familiares; e que a"loucura"pode ser aproveitada se expressa através das artes e da música,por exemplo.

Mas foi o italiano Franco Basaglia o precursor da reforma psiquiátrica no mundo. É dele a ideia de que o manicômio não é humanizável.Para Basaglia,o sujeito acometido da loucura possuía outras necessidades das quais a psiquiatria sozinha não daria conta.

Se criticava a postura tradicional da cultura médica,que transformava o indivíduo e seu corpo em meros objetos de intervenções clínicas. "A loucura é condição humana. Em nós,a loucura existe e é presente, tanto quanto a razão. O problema é que a sociedade, para se dizer civil, em vez de aceitar tanto a razão quanto a loucura, inventa a psiquiatria para tratar a loucura com a intenção de eliminá-la", dizia. A lei da reforma psiquiátrica foi aprovada na Itália em 13 de maio de 1978,  e  basicamente desvinculava a ideia de doença mental da periculosidade e estabelecia a extinção dos manicômios. 

Basaglia morreu pouco depois,no começo dos anos 80. Mas veio ao Brasil a tempo de concluir que nossos manicômios eram verdadeiros campos de concentração". Foi inspirado na reforma italiana que, em 1989, o deputado Paulo Delgado(PT), hoje coordenador de saúde mental do Ministério da Saúde,lançou um projeto de lei que propunha serviços substitutivos aos hospitais psiquiátricos. Doze
anos depois,em 2001, foi aprovado um substitutivo, do então senador Sebastião Rocha(PDT-AP): a lei 10.216. Essa versão não obriga ao fechamento dos manicômios nem à desvinculação da loucura da ideia de periculosidade e incapacidade. "Essa arte foi excluída. Eram as duas questões mais importantes. Os hospitais foram mais fortes", lamenta a psicóloga Maria Cristina Lopes.

A rede de trabalhos substitutivos, para diminuição dos leitos nos hospitais. consiste basicamente em oferecer Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) pequenos ambulatórios nos bairros, com enfermeiros, psiquiatras, psicólogos assistentes sociais,que ofereçam tratamento contínuo e individualiza residências terapêuticas -casas para pacientes crônicos, ou que precisem de atenção 24 horas por dia, centros de convivência e cooperativas, atendimento em postos de saúde e emergência em hospitais gerais. Essa rede seria o modelo ideal, se não dependesse da boa vontade de médicos,psiquiatras, funcionários e hospitais, familiares, políticos e principalmente da transferência de recursos dos manicômios. Segundo Delgado, hoje existem 750 CAPS no país. Mas os profissionais dizem que é muito pouco para atender a demanda. "Chegamos a atender 70.000 pessoas aqui no Instituto de Psiquiatria", diz Dei Sant. "E, quando mandamos o paciente procurar o CAPS do bairro para continuar o tratamento, ele volta dizendo que não tem profissionais. "Nisso concordam todos que estão envolvidos com as doenças mentais. Do Instituto de Psiquiatria às psicólogas do movimento anti manicomial e a Paulo Amarante. E intriga o fato de a rede ser muito mais barata do que a manutenção do modelo hospitalocêntrico, quando 63 por cento das verbas da saúde ainda  vão para os hospitais e apenas 36 por cento para os trabalhos substitutivos. 


Texto de Andrea Dip, que é jornalista, extraído de CIDADE DOS ESQUECIDOS. 
E-mail andreadip@carosamigos.com.br
Colaboraram Marília Melhado, Austregésilo Carrano e Fórum Social de Luta Antimanicomial de São Paulo.

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